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    O IMPÉRIO, PRÓXIMO DO FIM

    Na edição de 29 de Dezembro de 2008, o The Wall Street Journal/digital network publicou matéria a respeito das previsões formuladas pelo cientista político russo Igor Panarin, importante estudioso ligado à extinta KGB e à Academia de Formação de Pessoal das Relações Exteriores de seu país e consultor do governo russo(http://online.wsj.com/article/SB123051100709638419.html).

    O estudo de Panarin, que não é recente, trata da possibilidade de os Estados Unidos da América virem a se desintegrar em vários blocos, os quais se juntariam a outros países ou áreas de influência geopolítica.

    No post "O caminho da crise", que este blog publicou em 22/09/08 (ver abaixo), o texto termina com a frase "O império está mais próximo do fim". Este blog mantém aquelas palavras e agrega outras. O fim do império não significa, obviamente, a necessidade de cisão territorial da sede imperial. O território do país imperialista não precisa ser fracionado para que suas atividades exploradoras, em todo o mundo, sejam desmobilizadas. Mas, analisadas as circunstâncias e desdobramentos da crise econômico-financeira provocada pelos USA, a previsão de Panarin, com algumas ressalvas, é racional, pertinente e, mais ainda, representa uma "saída" técnica que, talvez, permita alguma sobrevida ao decadente sistema capitalista.

    O endividamento do Estado, nos USA, atinge montante impagável sob as normas do sistema financeiro. O custo permanente de manutenção daquele Estado (burocracia, seguranças interna e externa, comunicações, agências de inteligência, bases militares, programas educacionais e assistênciais, seguros sociais, repasses e subsídios, financiamentos de programas, etc.) é colossal e anti-econômico. O "todo" é muito maior do que a soma das partes, dadas as necessidades que o poder federal impõe sobre as reais necessidades dos estados-membros da federação.

    O estudo de Igor Panarin prevê que a costa oeste dos USA (Califórnia e adjacências) se juntaria à China ou ficaria sob sua influência. Diz, também, que o Texas e arredores voltaria ao México ou restariam sob a influência deste. Os estados do norte, idem em relação ao Canadá. Os do leste (New York, Massachussets, Connecticut, etc.) se juntariam à União Europeia.

    Este blog humildemente discorda, em parte, das previsões do estudo do cientista russo. Em primeiro lugar, existem quase duas dezenas de movimentos separatistas atuantes nos estados membros dos USA. Esses movimentos contemplam desde o Alaska até New Hampshire, Vermont, Maine, Rhode Island, núcleo das 13 colônias originais, passando pela Califórnia, Texas, Porto Rico e chegam ao Hawai. Não é plausível que estados dessas magnitudes se conformem com a mera anexação, seja pelo México, Canadá ou China. Ademais, suas economias são desproporcionais aos mencionados países. Seria o mesmo que o gato engolir o leão.

    Em segundo lugar, a eventual separação não ocorre(rá)(ria) devido às meras divergências entre os estados ou entre estes e a União. O desmembramento dos USA te(rá)(ria) o caráter de truque contábil e político, destinado a aliviar a carga de endividamento, assegurar a continuidade do modelo econômico vigente e, também, permitir fôlego ao sistema capitalista, mediante nova subdivisão internacional, dotada de países com economias comparativamente equilibradas. 

    O dollar está, como moeda, prestes a ser substituido nas transações internacionais. O espólio militar dos USA terá maiores aplicabilidades e eficácia se dividido em partes economicamente sustentáveis, segundo os interesses particulares dos atuais estados-membros da federação norteamericana. A dívida pública atual da União poderá ser transformada em títulos de valores negociados internacionalmente, com previsíveis e enormes deságios. O gigantismo da economia dos USA é, atualmente, causador de impedimentos e/ou dificuldades para o desenvolvimento de outras regiões do globo, devido às questões geopolíticas envolvidas. Também importa ressaltar que a divisão dos USA não terá o papel de desfigurar, na prática, sua continuidade territorial, tal como se apresenta na atualidade.

    O atual governo dos USA demonstra fragilidades imensas frente aos desafios existentes e às críticas condições em que pode agir. O montante de verbas lançado para reativar o sistema financeiro é incapaz, por si, de reativar a economia e, ironicamente, constitui entrave à retomada da produção e do consumo, porque sobrecarrega o endividamento público, enfraquece a moeda e não reabilita a capacidade de compra dos cidadãos.

    A divisão da federação norteamericana, ao quem parece, terá caráter estratégico e fundamentos calcados em profundas razões de naturezas política e plurieconômica. Resta saber qual será a tática possível e disponível, a velocidade do processo e se o curso dos acontecimentos será controlável.

    A título de curiosidade : os USA (Estados Unidos da América) é um dos poucos remanescentes dentre os "países" sem nome próprio. Os outros são os Emirados Árabes Unidos, a África do Sul (União Sul Africana) e a República Centro-Africana. Talvez esse fato pitoresco represente indício de provisoriedade ou, pelo menos, indicação de ausência de identidade interna homogênea.

      

     



    Escrito por nada será como antes às 15h17
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    NÚMEROS

    Vários órgãos de mídia reportaram as festas da passagem do ano nas capitais brasileiras. Para manter o costume de desinformar, hábito conhecido nas atividades de certos veículos jornalísticos, a descrição das festividades é substituida pela divulgação dos números oferecidos pelos organizadores a respeito dos eventos. As comemorações são, então, medidas pelas toneladas de fogos de artifício, pela variedade de grupos artísticos apresentados e, principalmente, pelo suposto número de pessoas que participaram das desconfortáveis aglomerações.

    Em São Paulo, segundo os dados apresentados, a Avenida Paulista teria sido ocupada por 2.400.000 (dois milhões e quatrocentas mil) pessoas. Esse número, provavelmente gerado para justificar os transtornos urbanos causados pela montagem da estrutura, que contribui para a piora da circulação do tráfego da cidade, tem outros objetivos. Busca, pela via indireta, louvar a a capacidade organizativa, que seria capaz de congregar tamanha multidão com poucas ocorrências policiais. Também serve para ampliar a divulgação mercadológica das empresas patrocinadoras, apresentadas como donas de especial tirocínio, apto a promover evento de massa com grandeza e sucesso.

    Mas o número de participantes apregoado pelos organizadores é óbvia MENTIRA. A Avenida Paulista tem menos de três quilômetros de extensão, dos quais, 600 metros são inservíveis para aglomerações. Aproximadamente 200 metros de seu comprimento estão além da Rua da Consolação, que literalmente separa a parte final da avenida com grades de ferro e via expressa para ônibus. Outra parte é afetada, na área central da via, pelo espaço vazio decorrente da passagem inferior, que traz os veículos provenientes do complexo viário Dr.Arnaldo/Rebouças. Restam, portanto, aproximadamente 2.100 metros de extenção, contados desde o início até a esquina com a Rua Augusta. Mais um detalhe: a avenida não é reta, de modo que eventuais espectadores posicionados no início da avenida não teriam visão do palco montado na parte mais movimentada. 

    A Avenida Paulista tem aproximadamente 40 metros de largura média, entre calçadas e leito de veículos. A área total, portanto, é de aproximadamente 85.000 m² (oitenta e cinco mil metros quadrados). Desse total devem ser subtraidos os espaços ocupados por postes, bancos, floreiras, jardins e o mobiliário urbano presente naquela avenida. Concentrações compactas de indivíduos comportam, em média, 3 (três) pessoas por metro quadrado e, no caso da festa de final do ano, as imagens divulgadas mostram que o grau de compactação permitiu que as pessoas presentes, salvo as muito próximas do palco montado, tiveram espaço suficiente para circular e praticar passos de danças. Isso significa que a concentração média não ultrapassou 2 (duas) pessoas por metro quadrado e, importante ressaltar, a aglomeração ocupou pouco mais de metade da extensão da avenida.

    A contabilidade é esclarecedora. Com boa vontade e espírito festivo é imperioso afirmar que, no máximo, entre 100.000 e 150.000 pessoas participaram da festa pública. Contados os que sairam mais cedo e os que chegaram mais tarde, é possivel que um total de 200.000 pessoas circularam no local, número compatível, com ressalvas, com a capacidade das linhas de metrô e ônibus que atendem aquela região.

    Nenhuma via pública da cidade de São Paulo tem capacidade para recepcionar as milhões de pessoas anunciadas pelos organizadores da festa. E quase nenhum veículo da imprensa, a se julgar pela fidelidade canina que meramente reproduziu dados fornecidos por press-releases, é dotado de senso crítico.       



    Escrito por nada será como antes às 11h39
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    PAPAI NOEL E EDUCAÇÃO

    O Portal G1 anunciou, em 12/12/08, na seção "Planeta Bizarro", a demissão de uma professora de um colégio da cidade de Royton, na Inglaterra. A professora perdeu seu emprego, segundo a notícia, por ter dito aos alunos, com idades em torno de 7 anos, que "Papai Noel" não existe e que os presentes natalinos são ofertados por seus pais.

    A fala da professora teria provocado choros infantís na sala de aula e alguns alunos teriam reclamado aos pais acerca do contato inesperado com a realidade. A direção da escola, talvez sem intenção expõe, com sua decisão, a crise educacional que atinge diversos países.

    Educar é tarefa que requer seriedade, métodos adequados e muita, muita atenção. Os graus de ensino devem respeitar as aptidões da criança, apresentar noções claras de tempo/espaço, incentivar suas potencialidades e, sobretudo, difundir conhecimentos aptos a promover o desenvolvimento do intelecto.

    A escola deve ser laica. Mitos e lendas devem ser tratados rigorosamente, sem omissão dos mesmos, mas segundo sua natureza. A escola é lugar de conhecimento, não de difusão religiosa, perpetuação de preconceitos ou de tradições supostamente dignas.

    A noção de "papai noel" é relativamente nova, ocidental e apresentada como aparente elo entre religião e consumo. Mas seu caráter essencial é, de fato, o de promoção consumista. Em princípio, nem é assunto a ser tratado em sala de aula mas, ao surgir, a atitude do professor deve ser a mesma adotada pela demitida de Royton. Afinal, escolas não são filiais de agências de propaganda, não são acionistas de indústrias de brinquedos e devem preparar as crianças para o enfrentamento da realidade.

    Milhões de crianças, espalhadas pelo mundo e expostas à perversidade da mídia, não recebem a "visita do papai noel" e certamente se sentem desprezadas por não merecer nenhum presente. A exclusão social do sistema atinge seu ápice justamente no período das festas em que supostamente é promovida a fraternidade. E a educação, instrumento capaz de gerar mudanças e superação das desigualdades, continua a serviço de interesses bizarros.     

     

     

     



    Escrito por nada será como antes às 13h00
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    SOBRE ATEÍSMO

    Há aproximadamente três semanas, este blogueiro visitou o site  http://ateusdobrasil.com.br que, como indica a denominação, trata do ateísmo e suas discussões. O tema do site, que funciona como um blog, atrai a participação de vários comentaristas, muitos dos quais com argumentos bastante interessantes.

    Aquele blog funciona através de posts lançados por seus titulares que, geralmente, tratam de temas direta ou indiretamente relacionados às religiões. Este blogueiro lançou, então, comentário a respeito da ligação religiosa dos posts, sob o argumento, em outras palavras, de que o ateísmo é autônomo e não deve se submeter a qualquer religião, seja para sustentar debates, seja para se apresentar. O comentário prosseguiu com a afirmação de que os temas tratados seriam melhor aproveitados se tratassem de Filosofia e questões similares.

    O mencionado comentário foi replicado por outros participantes e, um deles, que também mantém um blog, replicou com interessante argumento. Disse que o ateísmo discute religiões da mesma forma que os vegetarianos discutem a alimentação carnívora e os pacifistas se opôem à guerra. Esse instigante argumento é a base do texto a seguir.

    O ser humano é um mamífero primata. Os muitos milênios que antecederam a formação das sociedades organizadas certamente assistiram aos pequenos grupos de seres humanos que viviam como nômades, na constante busca por locais mais favoráveis à coleta de vegetais e à caça. Suas atividades eram quase exclusivamente voltadas à sobrevivência e reprodução. Os perigos eram enormes e constantes ; lutar contra animais ferozes, grupos rivais na disputa pelo espaço, intempéries e doenças eram as principais atividades. Sobreviveram e se reproduziram os grupos mais adaptados às dificuldades e somente muito tempo depois de seu advento o Homo Sapiens conseguiu organizar a produção de seu próprio alimento, pela agricultura e criação de animais ; assim surgiram as concentrações de grupos maiores e diversificados de humanos, pequenas aldeias, sistemas primitivos de trocas e, naturalmente, a necessidade de articular poderes capazes de administrar conflitos e garantir a continuidade dos grupos e da sobrevivência.

    Quanto maior o número de indivíduos que compunham as nascentes estruturas sociais, maiores e mais violentos conflitos surgiam. Maiores extensões de terras sob o mesmo grupo social, maior a dificuldade para a defesa dos interesses, das plantações, do espaço enfim, da sobrevivência.

    Os pequenos grupos pré-históricos, anteriores à formação de agrupamentos sociais eram controlados, sem dúvida, pela força dos mais dotados fisicamente. Eram líderes dotados de força e tirocínio, capazes de apontar a melhor forma de sobrevivência e o caminho a seguir. Morto ou ferido o mais forte, assumia o melhor equipado para a continuidade da luta. Apesar dos dotes de racionalidade, os humanos primitivos tinham poucos estímulos para a reflexão, o planejamento e para a busca de explicações para as ocorrências à sua volta. Havia pouca diferença, em termos de hábitos, entre aqueles pequenos grupos humanos e os demais primatas, como chimpanzés e gorilas de vida selvagem. Eram onívoros, belicosos e não cultuavam divindades. O medo da extinção, dos ataques climáticos e dos demais seres vivos governava e impunha limites às atividades.

    Quando os grupos primitivos conseguiram superar a vida nômade e se agrupar em locais mais estáveis e propícios à sobrevivência, novos problemas surgiram, juntamente com a maior capacidade de reflexão e senso de organização. Para liderar a nascente sociedade, não bastava a força individual ou o senso mais aguçado. O maior número de indivíduos que compunham os agrupamentos tornava a força pessoal incapaz de controlar conflitos maiores e em extensões geográficas mais amplas. Estava criada a necessidade de um "sistema" de poder, dotado de suficiente legitimidade para angariar respaldo e força entre muitos indivíduos e, para isto ser alcançado, era preciso existir um fator de unidade e convergência, onde a força física fosse aliada à convicção de que, pelo modelo de organização adotado, a sobrevivência fosse ampliada e garantida. Nascia, assim, junto da vida mais confortável, a idéia primitiva de dominação e controle.

    Foram gerados os mitos, as lendas, os locais de circulação restrita pelos temores. Não é preciso muito esforço de raciocínio para deduzir o processo que transformou, nas várias sociedades, os fenômenos climáticos em divindades, o desconhecido em sobrenatural, os mitos em idéias e manifestações de deuses. Os medos e costumes vivenciais, repassados oralmente às sucessivas gerações se apresentaram , por experiência, como valiosos instrumentos de dominação e controle social. Nascia a idéia de dominação legitimada pela íntima associação entre líderanças e crenças, entre ordens e vontades divinas, entre a vida e a sacralidade. Esse modelo elementar, com as devidas adaptações, persistiu fortemente até a destruição das monarquias absolutistas, em séculos recentes e persiste, na atualidade, apenas residualmente. 

    A condição natural e original do Homem é ateísta. O ser humano não tem deuses originais, é onívoro e belicoso. Suas eventuais crenças religiosas são produtos gerados culturalmente. Suas opções alimentares são, igualmente, devidas às condições criadas conforme os valores, necessidades e carências dos variados grupos sociais e culturais. As atitudes violentas ou pacíficas decorrem das condições objetivas vigentes em determinadas conjunturas espaço/temporais.

    Mas é preciso esclarecer essas características naturais do ser humano. Sua belicosidade é defensiva e racional, não selvagem. Seus ataques violentos ocorrem por necessidades concretas, não por instinto destrutivo. Lutas e guerras são dirigidas pela noção de sobrevivência individual e da espécie, ou seja, existe um senso de justiça, oriundo do raciocínio. A pregação de modos pacíficos para a solução de conflitos, atitude civilizada e muito benvinda, é formulada culturalmente e válida na proporção das atitudes dos oponentes.

    Na mesma linha, o Homem é onívoro não devido à vontade de destruir e consumir outras espécies, mas por aptidão e necessidade biológica. As vertentes vegetarianas decorrem de carências ambientais ou imposições místico/religiosas, ambas culturalmente restritas. Quando uma determinada sociedade opta por habitar região carente de recursos animais, essa opção é cultural e racionalmente obtida.

    Para fechar o círculo, o ateísmo natural do ser humano não equivale à insensibilidade, à incapacidade de produzir e experimentar lirismo, à impossibilidade de respeitar os demais seres e de conhecer a si mesmo. Ao contrário, as imposições religiosas, muitas vezes, tolhem a criatividade, impõem barreiras a certos temas e conhecimentos, freiam determinados avanços e, não raro, atemorizam seguidores com ameças alegadamente divinas. Foi como ateu que o Homem criou divindades, princípios religiosos e defendeu sua espécie das dificuldades.

    Por motivos diversos mas de estruturas semelhantes, cabe aos pacifistas combater a belicosidade a qualquer custo, ainda que com graves riscos à sobrevivência. Cabe aos adeptos do vegetarianismo dar seu exemplo aos consumidores de proteinas animais, com os riscos nutricionais conhecidos.  Assim como é tarefa dos religiosos tentar converter os descrentes, ainda que sob argumentos racionalmente insustentáveis e às custas da disseminação do medo como forma de manter a dominação.

    Se ao ateísmo cabe alguma tarefa sócio-cultural, ela é filosófica e não se prende ao debate religioso. As religiões são posteriores ao ateísmo e o próprio termo "ateu" surgiu da concepção pós-religiosa. Antes do advento da idéia de deuses não havia, como é óbvio, a noção de alguém desprovido de tal crença.

    Para os desavisados, é conveniente lembrar a conhecida pergunta. O que surgiu antes ? O ovo ou a galinha ?  A resposta é : o ovo ! A primeira galinha não caiu do céu nem brotou do solo. Ela nasceu de um ovo.

    Este blog voltará ao tema.

     

    ATUALIZAÇÃO/RESPOSTA : O comentário de Ricardo C. (ver na caixa de comentários) é respondido aqui devido ao fato de que o padrão deste blog não permite respostas maiores na caixa. Por essa razão, a resposta segue abaixo.

    Ricardo,

    Ecos de Darwin e Freud ? Sem dúvida mas, também, uma pitada de Lacan.

    Quando me referi ao "homem natural" tentei apresentar o homem em sua essência, isto é, desprovido das convenções, costumes, carga histórica, mitos, atividades, hábitos enfim, das características incorporadas nos últimos milênios que, sob o nome de cultura, ocultam as condições originais de nossa classe primata. Não se trata de "nostalgia" do passado selvagem, mas de tentar compreender que a cultura, à medida que evolui, adquire "autonomia" (as aspas são importantes) e comanda a continuidade evolutiva dela própria e do homem, em interação dialética. Portanto, o "homem natural" é aquele dotado das características formais e mentais aptas a designá-lo humano, porém ainda despido da força cultural que, mais tarde, o fará ator e personagem da ópera humana.

    É claro que não me atrevo a estabelecer onde e quando esse ser se encontrou em estado puro, pois o momento é tênue, impreciso e, seguramente, foi repetido em momentos e condições diferentes, conforme as necessidades de adaptação experimentadas por diversos grupos humanos.

    Também não é possível estabelecer a ordem cronológica da formação cultural. Por definição, à medida que a linguagem adquiria maior precisão, a cultura dava mostras de sua presença. Por isso, a linguagem elástica propiciou maior capacidade de reflexão e, ambas, mais cultura e mais amplos horizontes mentais. Cada conquista humana, cada avanço propiciou, sem dúvida, maior aceleração das conquistas seguintes até que, em indeterminado mas imaginável contexto, a quantidade acumulada de conhecimentos e práticas redundou em mudança qualitativa nas relações dos então minúsculos e ainda ignorantes grupos humanos. O ser humano deixava as atitudes e condutas originais, naturais e selvagens e passava à condição de modificador do espaço e criador de condutas para sí mesmo e seus pares. Essa é a noção de "homem natural" que utilizei no texto, em contraposição à de "homem cultural".

    Sobre a suposta "descoberta" de deus pelo homem, prefiro considerá-la "invenção". Talvez seja razoável imaginar que o homem "descobriu" a possibilidade de utilizar a idéia de divindade(s) como meio disseminador de temores e, portanto, dominação. Seu comentário menciona que ..."a idéia de Deus conforta, por trazer embutida um enorme lugar para o 'desconhecido que não precisa ser discutido' ". Ou seja, é a "idéia" da divindade e não a entidade divina que teria sido descoberta.

    Quando, no final do texto, escrevi sobre a questão do ovo e da galinha, minha intenção foi a de chamar atenção para a precedência dos fatos concretos. Antes da linguagem humana articulada houve uma linguagem fracionada e primitiva, incapaz de permitir abstrações sofisticadas. Conceitos como crença, fé, poder e dominação são produtos evoluidos, o que não significa que sejam superiores.

          

     

     

     

     

     

     

      

     

     



    Escrito por nada será como antes às 16h16
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    DECORRÊNCIAS DA CRISE

    A velocidade dos acontecimentos financeiros fez com que, nas últimas semanas, a mídia desistisse definitivamente (parece) de abordar os reais fatores que provocaram a atual crise.

    Crises financeiras de grande magnitude costumam provocar mudanças bastante sensíveis e a atual não será exceção. Este blog antecipou, no post abaixo (22/09/08 - "O caminho da crise"), que as circunstâncias monetárias internacionais vigentes serão mudadas. Novos acordos de comércio e de compensações deverão estabelecer outra moeda-padrão de troca, em substituição ao dólar vigente desde o Acordo de Bretton Woods. Essa moeda poderá ser virtual, ou seja, criada apenas para transações internacionais e sem circulação corrente ou, hipótese mais provável, gerada a partir de índice calculado pela média de uma "cesta de moedas" de várias nacionalidades (incluida a brasileira) para funcionar como parâmetro de câmbio. Seja como for, é certo que o cenário costumeiro das finanças internacionais, em curto e médio prazos, sofrerá grandes reformas que, aliás, estão em discussão na Reunião do chamado G-20, que ocorre em São Paulo neste final de semana. A mídia, como é praxe conhecida, tentará diluir a essência dos temas discutidos e mudar de assunto.

    A estréia, em janeiro de 2009, do novo governo dos USA, é aguardada por muitos como esperança de mudanças significativas. Certamente haverá muitas mudanças, mas estas não terão a qualidade e o teor imaginados pelos ingênuos eleitores. Desmontagens de impérios são dolorosas e podem arrastar os periféricos para o caos. Internamente (na sede do império), as dificuldades da recessão econômica impõem sérios ajustes no exuberante padrão de consumo artificialmente mantido até a eclosão da catástrofe bancária. Como a economia é imune às mágicas e não funciona com discursos comoventes, a realidade será a governante e estenderá as dificuldades para os próximos anos.

    A troca de alguns bilhões de unidades da moeda norteamericana por outros bilhões da moeda brasileira, dias atrás, não foi, como querem alguns analistas, um fardo para o Tesouro daquele país. Foi, antes, o contrário, com a finalidade de acelerar a remessa de capitais necessários à irrigação do sistema financeiro daquele país. Não existe, na História, registro de transações dessa natureza realizadas por benevolência, especialmente em tempos de crise.

    DADOS CORRELATOS- A recente fusão de dois grandes bancos brasileiros trará repercussões inéditas ao mercado financeiro. Além da óbvia solidez dos ativos, a maior capacidade de financiamento propiciará, em parte, eventos inéditos na economia nacional. Estão em andamento conversações a respeito da venda de poderosas subsidiárias de empresas norteamericanas a consórcios de grupos nacionais. Há alguns dias um grande negócio na área foi abortado devido a alguns detalhes (sobre transferências tecnológicas) que emperraram as negociações que, no entanto, serão retomadas.

    AVISO AOS NAVEGANTES-  Este blog não pretende fazer profecias. A conjugação de verbos no futuro, neste post, deriva do fato de que que os dados analisados se encontram em gestação e podem, talvez, sofrer algumas alterações. Mas a essência das informações é concreta.



    Escrito por nada será como antes às 11h49
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    O CAMINHO DA CRISE

    A crise financeira que atualmente abate, em média, um grande banco dos USA por semana, tem servido para que analistas de todas as colorações políticas busquem holofotes para suas falas. Entretanto, quase todas as análises produzidas se caracterizam pela explicação dos fatores imediatos que redundaram na falência de aristocráticas e supostamente sólidas instituições bancárias.

    Não é preciso ser candidato ao prêmio Nobel de Economia para afirmar que as especulações imobiliárias, que inflaram preços de imóveis e permitiram sobreposições hipotecárias lucrativas, ao exaurirem as expectativas, fizeram os preços voltarem aos níveis razoáveis e, então, deixaram títulos e prestações impagáveis. Esse tipo de "análise" pode ser feito por qualquer corretor de imóveis medianamente informado e não acrescenta nada ao panorama econômico.

    Análises macroeconômicas dignas devem ser mais amplas do que as circunstâncias imediatas e precisam envolver processos maiores, de modo que seja possível avaliar o ritmo e a direção dos movimentos do sistema capitalista.

    Nos USA, há algumas décadas são apresentadas certas facetas de grandes e importantes modificações no aparato produtivo e financeiro. No início da década de 1980 aquele país começou a desmontar vários setores produtivos, como tecelagens, confecções, manufaturas em geral e outros, num processo que coincidiu com a ampliação das atividades financeiras e estagnação de cidades outrora industriais. Regiões fabrís foram abandonadas e, como resultado prático, o ano de 1987 apresentou séria crise nas bolsas de valores. Posteriormente, a crise das cotações da Nasdaq demonstrou o que qualquer manual capitalista carrega nas primeiras páginas : a atividade financeira é dependente e reflexo da atividade produtiva. O conhecimento e o domínio da informação não garantem, isoladamente, como querem certos teóricos, a sustentação de nenhuma economia. A humanidade não está, como insistem os mesmos teóricos, em suposta fase pós-industrial. Indústria desenvolvida e provida de avançada tecnologia ainda é indústria. Afinal, a humanidade consome produtos industrializados e não se alimenta de bytes e softwares.

    Mas a chamada era Reagan, grotescamente seguida pela "dinastia texana", insistiu na tentativa de distanciar a economia do império decadente das frugalidades produtivas, seja pela terceirização da produção, seja pela pura e simples importação de produtos industriais. O resultado dessa política, claro, levou à queda do poder de consumo de milhões de famílias que, antes, dependiam das atividades industriais que foram deslocadas. O mercado financeiro, apesar do expressivo crescimento de suas atividades, não consegue e não precisa incorporar grandes massas de operadores.

    Esse quadro complexo (baixo poder de compra X mercado financeiro em expansão) levou a que os "gênios" da especulação criassem mecanismos capazes de gerar crescimento econômico mediante o artifício da especulação imobiliária, cujos frutos, mediante as renegociações de hipotecas, permitiram que vastos setores da chamada classe-média elevassem seus padrões de consumo, o que permitiu a continuidade do crescimento da economia, porém com medidas artificiais.

    Para usar um chavão, a crise das hipotecas é apenas a ponta do iceberg. A origem verdadeira da atual crise (outras serão sobrepostas) está, na realidade, na perda de capacidade de consumo dos cidadãos dos daquele país e na virtual estagnação de sua economia. O gigantismo da economia norteamericana e a desproporção comparativa com outros países levou à desastrada mudança de produção acima mencionada e, para mitigar seus péssimos resultados, formulou a artificial valorização dos imóveis. Agora é hora de pagar a conta, que é altíssima e não se resume aos US$ 700 bilhões despendidos no socorro aos bancos.

    QUADRO ATUAL. O mercado financeiro está depauperado e em crise de confiança, além de parcialmente atrelado ao Estado. A perspectiva é de endurecimento regulatório. A inflação é ascendente. O dólar tende a ser desvalorizado. A produção industrial restante tende a diminuir em quantidade. A curto e médio prazos, haverá maior internalização da descomunal quantidade de moeda espalhada em reservas monetárias de diversos países mundo afora, com resultados previsíveis no meio circulante. O Federal Reserve (banco central) tem pouca margem de manobra para estimular a economia, pois a taxa básica de juros está em torno de 2% e não pode baixar mais que residualmente. O endividamento dos cidadãos alcança, na média, índices recordes e indica diminuição na capacidade de obtenção de créditos.

    A queda da economia dos USA leva às quedas paralelas das economias do México, atrelado ao Nafta, e da China, dependente do comércio exterior com o império decadente. Para compensar a queda de suas exportações, o governo chinês terá de despejar suas reservas em dólares, porém com cautela e velocidade estritamente controladas, para evitar maiores perdas com a desvalorização. As convulsões sociais mexicanas, atualmente restritas a certas províncias, podem se tornar generalizadas devido ao provável desemprego decorrente da diminuição produtiva.

    DIAGNÓSTICO FINAL. A atual crise financeira demonstra o esgotamento do modelo capitalista aplicado na sede do império. A moeda dos USA perde  sua expressão principal, que é a de servir como padrão das relações comerciais internacionais, conforme estabelecido no Acordo de Bretton Woods. Novos acordos internacionais deverão ser realizados para estabelecer alguma moeda virtual ou real, calcada na média de cotações de várias outras (inclusive o Real brasileiro), para servir de base nas transações comerciais.

    UMA COMPARAÇÃO. Alguns analistas comparam a dimensão da atual crise com a de 1929. Ambas são financeiras, mas é importante lembrar que suas origens são completamente diferentes. A de 1929 se originou do excesso de estoques de produção que se revelaram infinanciáveis devido à incapacidade de consumo, com a consequente desvalorização dos papéis acionários. A atual decorre da capacidade artificial de consumo gerada por meios especulativos e da incapacidade de rolagem do estoque acumulado das dívidas.

    O império está mais próximo do fim.

     



    Escrito por nada será como antes às 11h14
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    HISTERIA CONTRA O CIGARRO

    Vários séculos de discussões filosóficas e incontáveis experiências foram necessários para que a humanidade alcançasse as atuais condições de existência. Não é exagero afirmar que quase todas as atividades contemporâneas são norteadas pelo conhecimento científico historicamente acumulado. Ferramentas, aparelhos, máquinas, meios de locomoção, objetos pessoais, ações profissionais, roupas, diversões, práticas de higiene, remédios e as respectivas relações destes ítens com todas as demais esferas vivenciais são moldadas ou, ao menos, inspiradas na Ciência.

    Ciência não é área propícia à atuação de palpiteiros e especuladores. Demanda a utilização de metodologia adequada e estritas fidelidades descritiva e conclusiva. Conclusões cientificamente respaldadas exigem a reprodutibilidade, ou seja, determinada ocorrência ou reação deve ser impecavelmente reproduzida em condições análogas. Fora desse critério essencial, não há Ciência e sobra especulação.

    Galileu, Bacon e Descartes, construtores iniciais da metodologia científica, demonstraram que a experimentação, a comprovação das coincidências constantes e a racionalidade formam o trio básico da análise responsável. Os acessórios ficam por conta das disponibilidades existentes, conforme avança o conhecimento. Há alguns séculos atrás, enxergar um inseto dependia da luz solar favorável e da superposição de lentes grosseiras ; hoje, microscópios eletrônicos e de varredura possibilitam, em laboratórios medianos, a detecção de minúcias que no passado sequer eram imaginadas. De nada adianta, por outro lado, que um pesquisador, com aparelhos sofisticados, detecte partículas e elementos se não dispuser de conhecimento metodológico capaz de propiciar o cruzamento dos dados para, finalmente, formular conclusões dedutivas.

    O candidato a cientista precisa, portanto, conhecer a diferença entre Método e ferramentas de pesquisa. O Método deve pairar e penetrar de modo incessante o desenrolar do processo de conhecimento. As ferramentas devem ser utilizadas na medida das necessidades e restritas a etapas definidas do mesmo processo. Sem essa noção, apenas aparentemente simples, existe o risco de as partes serem tomadas pelo todo e a aparência ocupar o lugar da essência.

    A introdução acima é necessária para a compreensão do objetivo deste pequeno e resumido ensaio,  que discute o caráter não-científico das "pesquisas" que afirmam a suposta nocividade do tabaco e do hábito de fumar. Tais "pesquisas" costumam ser realizadas através de dados estatísticos e, invariavelmente, concluem que o hábito de fumar conduziria usuários e "fumantes passivos" a doenças respiratórias, acidentes vasculares cerebrais e cânceres pulmonares, dentre outras ameaças.

    Dados estatísticos são ferramentas utilizáveis em etapas específicas de determinadas pesquisas. São dados parciais e servem como argumentos provisórios (mutáveis, portanto) referentes a categorias do processo científico. Extrair "conclusões" a partir desse dados equivale a tomar a forma pelo conteúdo e cometer verdadeiro atentado à Ciência.

    Inúmeras "pesquisas" estatísticas apresentam o uso do tabaco relacionado às mencionadas doenças. Afirmam que seus usuários têm danos à saude derivados da inalação da fumaça de cigarro e congêneres. Advertem, também, que os cigarros, além da nicotina, conteriam milhares de substâncias químicas, muitas delas tóxicas e de efeito devastador ao organismo humano. À primeira vista, esses argumentos são fortes e convincentes, principalmente aos leigos, que desconhecem o processo de formulação do conhecimento científico.

    Mas as "conclusões" dessas pesquisas são parciais, arbitrárias, comprometidas e obscurantistas !!!

    Fumantes são, como é óbvio, pessoas que habitam áreas urbanas, rurais e litorâneas. Além de fumar, têm práticas e hábitos semelhantes aos dos demais membros da sociedade. Fumantes habitam imóveis, utilizam transportes individuais e/ou coletivos, ingerem alimentos variados, respiram o ar disponível na atmosfera, ingerem remédios quando necessário, dentre inúmeras outras atividades comuns aos seres humanos. Por que, então, o hábito de fumar deve ser isoladamente tomado como fator desencadeante de mazelas da saúde pública ?

    Vários fatores do cotidiano podem ser isolados e apontados como desencadeadores de moléstias, talvez com maior propriedade. É sabido que câncer , enfisema pulmonar e assemelhados ocorrem com maior ênfase em áreas urbanas. Áreas urbanas, como também é sabido, concentram maior grau de poluição ambiental (que inclui atmosfera, água, ruidos, etc.). Por que não são feitas pesquisas acerca das relações entre consumo de água quimicamente tratada (e reutilizada), fiação elétrica exposta (radiação), concentração de ondas eletromagnéticas, atmosfera contaminada por gazes industriais e todas as demais circunstâncias típicas dos centros urbanos ?

    Outra questão. Os registros apontam, claramente, o aumento vertiginoso de ocorrência de câncer pulmonar a partir da década de 1930, no âmbito ocidental. Curiosa e sugestivamente, esse período coincide com o advento da comercialização em massa de alimentos industrializados. Conservantes, acidulantes, espessantes, aromatizantes, flavorizantes, anti-oxidantes e muitos outros insumos químicos são fartamente utilizados em alimentos, inclusive os dirigidos às crianças. No entanto, raríssimos são os trabalhos dirigidos à apuração das reais implicações desses insumos ao organismo. Mas a coincidência é notável !

    Ao que parece, o sistema econômico preponderante no mundo, certamente para acalmar ânimos com manobra diversionista, resolveu "leiloar" um dos setores industriais (o de tabaco) para proteger os demais de acusações mais elaboradas. Escolhido o "inimigo" (o tabaco), todas as forças, a mídia, os Estados, o discurso predominante, a propaganda, a "ciência das estatísticas" são direcionados para abatê-lo. Enquanto isso, as raízes ocultas são mantidas a salvo e continuam a envenenar (em todos os sentidos) os ingênuos consumidores.

    Uma derradeira questão. Passados mais de 20 anos desde o início da histeria anti-tabagista, não existem indícios da diminuição das ocorrências das doenças mencionadas. Mas as fontes oficiais de saúde, mundo afora, alardeiam a diminuição, em média, de 15% do número de fumantes. É, no mínimo, tragicômico !

     



    Escrito por nada será como antes às 11h22
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    MENTIRAS

    A indústria do cinema procura atrair espectadores com criatividade de cenários, cores, figurinos e atores conhecidos. Mas a voracidade de chamar atenção costuma gerar deturpações da realidade.

    Há alguns anos atrás, uma produção ambientada na Roma antiga (O Gladiador) conseguiu concentrar, em aproximadamente 2 horas de projeção, várias incoerências e mentiras que contribuem para gerar confusões históricas nos espectadores. É claro que uma obra de ficção pode conter vontades e expressões próprias, segundo as intenções estéticas de seus criadores. Mas, se a ficção é ambientada na antiga Roma, deve respeitar, a título de verossimilhança, as condições reais vigentes naquela localidade, na respectiva época.

    Uma das cenas de O Gladiador apresenta o protagonista diante de uma infinidade de elmos, capacetes, escudos e armas de vários formatos e tamanhos, expostos numa enorme bancada, para serem escolhidos. Quem tem mediana noção acerca das condições produtivas da época sabe perfeitamente que tal diversidade consumista era impensável naquela altura, especialmente para escravos prestes a serem apresentados na arena do Coliseu. A riqueza romana jamais foi sinônimo do consumismo de classe-média vigente na atualidade. A população da sede do Império, em algumas ocasiões, encontrou dificuldades de abastecimento de alimentos e de outros suprimentos. Armas e proteções corporais foram, por muito tempo, artigos de luxo.

    No mesmo filme, algumas das principais cenas têm o Coliseu romano como "protagonista". Nada mais mentiroso do que as dimensões do cenário utilizado. Quem conhece as ruinas daquele edifício, que mantém o perímetro intacto, sabe perfeitamente que seu interior comportaria, no máximo, entre 5000 e 10.000 espectadores apinhados nas íngremes arquibancadas. Sua magnífica e imponente arquitetura não esconde o fato de que a dimensão de sua arena é modesta se comparada aos ginásios esportivos da atualidade. No entanto, o "Coliseu" daquela película foi multiplicado, transformado em enorme construção que humilharia a verdadeira.

    Na época do lançamento do filme, algumas revistas e publicações especializadas chegaram a afirmar que o Coliseu, quando em funcionamento, comportaria público de 50.000 pessoas. Além de mentirosa, essa afirmação pode levar a outros graves equívocos a respeito da história de Roma. Aquela cidade, que foi sede do Império e origem das conquistas territoriais, sempre foi governada como cidade-Estado. Suas conquistas territoriais sempre foram anexadas como províncias, não raro governadas de forma autônoma, ainda que tributárias dos recolhimentos e decisões políticas da sede romana.

    Na Roma antiga, a sofisticação arquitetônica estava restrita à área das atuais ruinas do Foro Romano, que concentrava as edificações públicas, os templos sagrados e o próprio Coliseu, numa das extremidades. As demais partes da cidade, nem todas ligadas por continuidade urbana, eram dotadas de construções precárias, com caótico e apertado traçado viário. Afinal, a antiga Roma era apenas uma aldeia crescida desordenadamente.

    Alguns especuladores costumam passar a idéia de que aquela cidade chegou a possuir, em sua fase áurea, mais de 1 milhão de habitantes, em meados do século II desta era. Telas e papéis aceitam qualquer escrita mas, em contrapartida, atestam a ignorância de seus autores. Cidades com essa magnitude demográfica exigem enorme capacidade de suprimento e equivalente poder de gerar ocupação de trabalho para seus moradores. As fontes d'água e os aquedutos romanos seriam insuficientes sequer para saciar a sede de tamanho contingente. A produção de alimentos na época, ainda primitiva, não teria condições de sustentar uma metrópole, mesmo a "papa" de trigo que consistia a refeição típica dos romanos. E, principalmente, é sabido que as ocupações daquela cidade não eram industriais, mas meramente manufatureiras e artesanais, incapazes de gerar trabalho para enorme massa populacional. Não é temerário afirmar que a antiga Roma teve, no máximo, entre 50.000 e 100.000 habitantes.

    Hollywood e similares não constituem fontes confiáveis de dados históricos e apenas promovem o consumo de futilidades.

     



    Escrito por nada será como antes às 11h36
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    INTERCÂMBIOS

    Computadores são máquinas convenientes, em certos casos. Mas são irascíveis contra amadores, vítimas indefesas de ardilosas trapaças planejadas no Vale do Silício.

    Computadores são seres dotados de comunicação com milhões de outras criaturas semelhantes e é possível que, em conjunto, algum dia comecem o ataque final contra pessoas de boa índole e outras nem tanto.

    Mas o assunto deste post é mais prosaico e diz respeito à troca das caixas de som de meu PC, que é novo, mas cujas caixas originais têm  sonoridade e qualidade lastimáveis. As caixas novas, de design redondo e atraente ficaram, por preguiça e algumas tarefas agendadas, sobre a geladeira do escritório. Por uma semana compuseram, com a amiga, humorada e interessante parceria . Pareciam orelhas do Mickey. 

    A partir do segundo ou terceiro dia da experiência de convívio, o refrigerador passou a apresentar vivacidade e sinais jamais vistos. Parecia sorrir quando sua porta era aberta, as pedras de gelo se soltavam das formas com mais facilidade e até o ruido do compressor diminuiu. Cheguei a acessar o site de um fabricante, disposto a enviar sugestão para o desenvolvimento de um modelo dotado de orelhinhas, capazes de redimir décadas de injustiças contra as geladeiras, surdas e sem voz mas sempre dispostas, pela simples abertura das portas, a oferecer água gelada e proteger alimentos dos infortúnios climáticos.

    Um dos maiores escritores que o mundo conheceu prestou atenção nas bicicletas e reclamou que elas, apesar de dóceis e de comportamento discreto, sofrem injusto preconceito, proibidas de entrar em certos locais. É hora de arregimentar apoio às geladeiras, que prestam relevantes serviços e não têm como reivindicar seus direitos e nem escutar as sórdidas articulações familiares, que tramam suas abruptas substituições com argumentos frívolos, como a necessidade de combinar a mesa e os armários da cozinha com um modelo mais novo. Nessas horas, aquela que foi a salvadora de pudins e sorvetes é relegada ao esquecimento num canto sombrio da garagem da casa e, quando muito, tem suas prateleiras transformadas em depósito de ferramentas e trastes inúteis, desligada e abandonada. Isso é injusto e não pode continuar !!!

    Tudo o que é publicado neste blog envolve responsabilidade política e respeito à meia dezena de leitores habituais. Por essa razão, realizei uma pequena enquete com amigos para testar a proposta de emancipação das geladeiras. O argumento principal aponta que aparelhos de rádio, televisores, computadores, cd players e até os aposentados toca-discos dispõem de "orelhas" sonoras, enquanto as geladeiras permanecem como deficientes áudio-fônicas. As críticas mais consistentes partiram de uma economista que, com argúcia e espírito democrático, apontou a necessidade de estender a cidadania aos liquidificadores, batedeiras, processadores e aspiradores. Repliquei com firmeza, dizendo que esses seres são de natureza violenta e realizam suas funções de modo estridente, sem se importar com os passantes e demais objetos. A economista se limitou a sorrir e admitir a veracidade dos argumentos.      



    Escrito por nada será como antes às 16h54
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    OCUPAÇÕES

    Utilizo, para guardar um simplório meio de transporte, os serviços de uma garagem localizada na região central de São Paulo. É um grande galpão de três andares, ao qual se chega após percorrer algumas dezenas de metros de um corredor de entrada, ao ar livre, em via de grande movimento. O sistema de funcionamento consiste em estacionar o veículo na entrada do galpão, com a chave no contato e passar ao manobrista que, em troca, entrega um comprovante e dirige o automóvel para a vaga conveniente. Com o tempo e a conquista da confiança, o comprovante é dispensado por muitos dos costumeiros usuários, incluido o que escreve o presente.

    Mas o interessante não é o sistema de funcionamento ou a dimensão do prédio. No período noturno o estabelecimento é servido por dois manobristas e um deles tem atitudes incompreensíveis. Invariavelmente, ao chegar ao galpão, o usuário se depara com a pergunta - O senhor veio buscar seu carro ?  A vontade maior é a de responder que se trata de um passeio turístico ou que estamos ali para comprar jornal ou salgadinhos, porque não se conhece pessoa que adentre garagens com intenção diferente de deixar ou buscar algum veículo, principalmente quando se trata de mensalista conhecido. É bem simples : ao entrar motorizado, o usuário pretende guardar o veículo ; ao chegar a pé, a operação é inversa.

    Mas aquele manobrista é mais pitoresco. Ao receber a confirmação de que o usuário realmente pretende seu veículo, invariavelmente ele dá duas voltas por entre os veículos estacionados no pavimento térreo e, depois, efetivamente se dirige aos andares superiores, que é onde estão os carros dos mensalistas. Ao trazer o automóvel, após injustificada demora, o manobrista costuma iniciar conversa sobre assuntos variados, como seu vizinho desempregado, o cachorro da filha ou que a marmita de ontem estava azeda. O interessante é que a conversa se estende sem que o manobrista saia do carro, o que implica em dedicação diplomática para retirá-lo e retomar a posse.

    Na semana passada a situação atingiu o paroxismo. Este autor foi chamado com urgência à garagem, às 5:00 da madrugada. O motivo do apelo foi, segundo o mesmo manobrista, que o veículo havia sido deixado sem as chaves. De nada adiantou argumentar que, como estava estacionado no andar superior, a praxe havia sido obedecida. A solução, depois de muitas negativas e insistências, veio com o exame dos demais veículos chegados em horário parecido, na noite anterior e....surpresa !!! A chave em questão estava sobre o banco de outro carro, estacionado em outro pavimento.

    Quais insondáveis preocupações afligem o manobrista ? Estaria acometido de alguma síndrome laboral derivada da monótona repetição de atividades ?

     

     



    Escrito por nada será como antes às 10h57
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    ECOLOGIA, DESMATAMENTO E PROJEÇÕES

    A sobrevivência do homem decorre da luta CONTRA a natureza. A simples coleta de frutos, a caça e pesca artesanais e a extração de raízes comestíveis são agressões à natureza, ainda que em pequena escala e para mero consumo individual.

    Quando a humanidade passou a produzir e estocar excedentes, há alguns milhares de anos, foi dada a largada para drásticas mudanças nas terras do planeta. A geração de excedentes de produção não é criação capitalista ; o sistema capitalista apenas criou mecanismos de gestão e consumo, para transformar os estoques de alimentos e matérias-primas em mercadorias lucrativas, através da exploração da mão-de-obra.

    Nos últimos três séculos, a agricultura do arado manual tornou-se industrial, com adubos e defensivos químicos aplicados por maquinário sofisticado, plantio e colheita mecanizados , além da especial logística de transporte e comercialização dos resultados. Terras impróprias foram (e são) tratadas para receber culturas antes inviáveis. A engenhosidade humana, através de canais de irrigação, recupera áreas desérticas, ganha espaços do mar com aterros, muda cursos hidrográficos e, assim, consegue ampliar as perspectivas de sobrevivência e ampliação da espécie.

    Historicamente, os países que conseguiram superar o atraso econômico foram, justamente, os que avançaram, antes, na agricultura. A Europa, pátria da Revolução Industrial, moldou minuciosamente seu espaço produtivo. Florestas antigas foram transformadas em território de grãos e leguminosas, rios foram as estradas iniciais de escoamento, o espaço produtivo foi delimitado em propriedades rigidamente controladas.

    China e Índia, territórios de grandes contingentes populacionais, há milhares de anos têm na agricultura intensiva a base de sustentação da população e da economia. O arroz indiano e chinês sai das mesmas planícies úmidas há séculos, com instinto apenas elementar de preservação. As técnicas modernas apenas aumentam a produtividade.

    Brasil e os demais países da África e América Latina não gozam de isenção divina ou natural. Desenvolver a agricultura, gerar energia e obter recursos minerais são operações que obrigam a modificação ambiental. É claro que as intervenções em ambientes delicados podem e devem obedecer a critérios de preservação, cientificamente apoiados e responsáveis. Afinal, a ampliação das fronteiras produtivas não é provisória ou sazonal, mas permanente. Portanto, é de máxima conveniência a aplicação de técnicas e manejo sustentável, seja quanto ao aspecto econômico como de respeito ao equilíbrio natural.

    O homem é um ser da natureza. Sua reprodução e permanência é talvez mais importante do que a do jacarandá. O mico-leão dourado deve ser preservado, mas não à custa da fome de uma só criança. Conciliar a preservação do máximo de espécies vegetais e animais é dever da humanidade, que é racional, mas não existe traço de racionalidade na luta quase religiosa de manutenção de florestas ao custo da miséria de populações desprovidas de trabalho e sustento.

    As projeções de dados, que prognosticam a destruição completa da floresta amazônica para as próximas décadas são mentirosas. Em primeiro lugar, é preciso discernir o significado de região amazônica (com florestas densas e rios caudalosos) e de "Amazônia legal". Esta última é ficção jurídica, criada com a finalidade de obtenção de subsídios e incentivos, mas não constitui continuidade florestal, pois grande parte dessa área é formada por savanas e cerrados. Por coincidência, boa parte das queimadas e ampliação da chamada fronteira agrícola abrange, exatamente, áreas não-florestais. 

    As projeções matemáticas desconsideram questões elementares da economia. Uma delas é logística : simplesmente não existe escoamento viável de madeira e eventual produção agrícola em áreas remotas; as grandes distâncias e os bloqueios naturais impedem, por mera econometria, a viabilidade econômica de transporte. A outra é de mercado : se , porventura, toda a região amazônica fosse efetivamente desmatada e ttransformada em cultivo agrícola, sua produção excederia, geometricamente, as capacidades globais de consumo e de armazenamento.

    O alarmismo das projeções e a campanha internacional contra as pretensões produtivas brasileiras, além de cínicos e hipócritas, têm endereço certeiro : obstruir a capacidade do país como mega-produtor de alimentos e, consequentemente, sua importância geopolítica.

    Extrativismo florestal pode ser praticado em escala artesanal e gerar sustento marginal, que não é desprezível para certos núcleos populacionais. Mas também é verdade que alguns outros produtos, como o látex natural, são incapazes de competir com os sintéticos. Defender a intocabilidade amazônica contraria o espírito humano, freia a expansão econômica e condena milhões à miséria e ignorância. Do outro extremo, permitir a destruição descontrolada, beneficia pequenos grupos exploradores e perpetua a dominação de trabalhadores e populações tradicionais. É preciso delimitar, com estrita racionalidade, a área necessária à organização do espaço produtivo, com equilíbrio distributivo e responsabilidade ambiental.

    A Mesopotâmia, origem do cultivo organizado, foi ocupada com muitas disputas, suor e sangue. A Amazônia sofre de problemas semelhantes, mas dispensa a histeria e o alarmismo. 



    Escrito por nada será como antes às 09h13
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    ESPAÇOS PÚBLICOS II

    A prefeitura de São Paulo patrocinou, nos dias 26 e 27 de abril (sábado e domingo), o evento denominado "Virada Cultural". Consiste em palcos armados em alguns locais do centro da cidade, cada qual apresentando uma modalidade musical. Um de rock, outro de samba, espaço para piano, rap, dance-music, etc.

    À primeira vista, a promoção é simpática, pois abrange gostos diversos e atrai pessoas que não costumam circular na decadente área central, o que pode produzir alguma revitalização. Mas não é assim que as coisas são.

    Primeiro, para justificar os alegados mais de R$ 6.000.000,00 (seis milhões de reais) gastos no evento, tem início a tradicional guerra de números de participantes. Alega-se que 1.000.000 (um milhão) de pessoas (*) assistiram aos diversos shows apresentados em cada palco. Essa mentira grosseira, verificável visualmente por qualquer pessoa dotada de sensatez que tenha circulado e presenciado as apresentações, demonstra a ansiedade da administração em apresentar resultados retumbantes. Com um detalhe, apenas, é possível desmentir esses números : as três estações do metrô envolvidas na área dos palcos (Pedro II, Anhangabaú e República), simplesmente não têm capacidade diária para suportar tamanho contingente. Se um milhão de pessoas foram aos locais, é de se esperar que voltaram a suas casas. Ora, 2 milhões de passageiros equivalem a 65% do movimento diário do metrô, que congestiona absolutamente todas as aproximadamente 60 estações do sistema. Imagine-se 2/3 desse total em apenas 3 (três) estações e se obtém a dimensão da mentira.

    Alguns podem lembrar a revitalização prometida para a área central e observar que eventos dessa natureza podem trazer resultados favoráveis. Outra inverdade ! Aproximadamente 100.000 pessoas moram no centro de São Paulo e uma vez ao ano são "brindadas" com esse evento duvidoso, que literalmente inferniza a área durante 24 horas seguidas, com sonoridades agressivas e de gostos duvidosos espalhados por potentes e enormes instalações. Para piorar, a montagem dos palcos, realizada nas madrugadas antecedentes, é composta de incessante bater de metais e armações de aço e respectivas gritarias de operários e roncos de enormes caminhões. Imediatamente após o encerramento da barbárie, a desmontagem é feita às pressas, ocupando toda a madrugada seguinte, de modo que a segunda-feira (hoje) testemunha apenas a imundície deixada nas ruas costumeiramente abandonadas.

    Questões pertinentes :

    1. Qual o valor cultural de uma apresentação da cantora outrora conhecida como Maria Alcina, realizada às 3:00 h (madrugada), em pleno Largo do Arouche, que se caracteriza por prédios em sua maioria residenciais ?

    2. Qual critério estabelece que a Praça da República deve ser agraciada com sonoridade estridente e a Praça Dom José Gaspar dispor de apresentações exclusivamente pianísticas e suaves ?

    3. Qual critério e quem se encarregou de contratar (e pagar) grupos e "artistas" desconhecidos, utilizando dinheiro público, numa cidade cheia de carências ?

    4. O que um evento de 24 horas seguidas traz de proveitoso à área central, além de sujeira, poluição sonora e gastos desnecessários ?

    5. Por que a verba gasta não é distribuida em eventos equilibrados, ao longo do ano e nas demais regiões da cidade ?

    A cidade inteira é imunda, especialmente na região central. Se a verba da "virada cultural" fosse aplicada (mesmo !) na limpeza de ruas, haveria melhor proveito, porque higiene urbana também é cultural !!!!!!

    Quem, além dos "artistas" e da classe média deslumbrada que acorreu aos shows se beneficiou desse assalto aos cofres municipais ?

     

    (*) ATUALIZAÇÃO : Matéria publicada no Caderno 2 do jornal "O Estado de São Paulo" menciona declaração do Secretário de Estado da Cultura que atribui aos seguranças e trabalhadores que atuaram no evento a informação de que 4 (quatro) MILHÕES de pessoas passaram pelas apresentações tratadas neste post.

     

     



    Escrito por nada será como antes às 11h20
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    TEATRO NA ATUALIDADE

    A cultura ocidental deve boa parte de seu caráter ao teatro. Na Grécia antiga, as apresentações dramáticas eram essenciais e, mais tarde, na Itália, a Commedia del'Arte gerou signos teatrais que perduram até hoje.

    O cinema deve grande parte de sua estrutura ao teatro. Signos, cenografia, iluminação, interpretação e vestuário respeitam códigos elaborados e experimentados durante séculos, milênios, nos palcos.

    Interpretar papéis, fantasiar situações, criar ficções e, com isso, alargar a própria cultura e sondar possibilidades é da natureza da racionalidade humana. A arte caminha com o homem, seu criador. E o homem aprende com a arte, sua criatura.

    Do teatro de vanguarda aos rituais primitivos, a encenação está presente em todas as culturas. A cerimônia do Kuarup tem a mesma genética das obras de Shakespeare, cada uma apresentando seu respectivo teor de dramaticidade e adequação a culturas tão distintas.

    Mas o teatro, aquele espetáculo realizado em recintos fechados ou abertos, com delimitação entre platéia e palco, cobrança de ingressos, maquiagem e vestuário produzidos e dirigidos, padece de doença sem perspectiva de melhora. Está morto ou, pelo menos, em estado agonizante.

    O Brasil tem minúscula tradição teatral. Em meados do século XX foram feitas as primeiras experiências realmente profissionais. A partir daquela época o país experimentou, em diminuta escala e em poucas décadas, a trajetoria percorrida em séculos, no solo europeu. Sófocles, Somerset Maugham, Shakespeare, Brecht foram escalados para destruir o teatro de revista que era, então, a opção rotineira nos palcos. Mas esse teatro começou mal, por aqui. Seus introdutores criaram salas pequenas, para acomodar apenas as elites do país ainda analfabeto. O preço dos ingressos, cada vez mais caros, serviram, desde o início, como credencial provinciana. Freqüentar o teatro ainda é, para muitos, visto de entrada e permanência no seio das elites econômicas e intelectuais, mesmo que a platéia não entenda absolutamente nada a respeito do tema da peça ou das intenções de seu diretor. Assistir uma peça e depois jantar em restaurante de couvert ameaçador e pratos ofensivamente rasteiros é programa habitual de uns poucos conhecedores, realmente interessados, acompanhados de arrivistas ignorantes, cujo único mérito cultural é a carteira recheada de cartões de crédito.

    Há mais, ainda. A soma total das poltronas disponíveis em todos as salas de teatro da maior cidade brasileira atinge poucos milhares de lugares. Esse dado, isoladamente, demonstra que as chamadas damas do teatro e respectivos cavalheiros, aclamados e obedientemente aceitos pela população são, na realidade, criações da mídia, pois a imensa maioria das pessoas jamais viu ou verá qualquer apresentação teatral. Sem as medíocres novelas da TV, atores "consagrados" do teatro poderiam caminhar pelas ruas sem reconhecimento. Sem os enormes anúncios subsidiados em jornais, quase ninguém saberia do teor das peças em cartaz. Sem os palpites geralmente equivocados dos "críticos", poucos poderiam, pelos títulos das peças, diferenciar uma tragédia grega de mais um exemplar do besteirol ou das oportunistas montagens que exploram a fama dos atores da televisão.

    A cada nova temporada, os gabinetes de Brasília são invadidos pelo séquito do teatro. Seus integrantes, legítimas testemunhas do velório teatral, desfilam seus trajes planejados, na tentativa rotineira de atrair holofotes para sua proclamada "luta" pela manutenção da cultura. O interesse real é, claro, a busca de patrocínios e incentivos fiscais para a manutenção de seus luxos, à custa da rarefação de verbas para objetivos maiores. Os "heróis" do teatro nacional querem dinheiro e benção públicos para o custeio de suas investidas em produções de ingressos exorbitantes para platéias a cada vez menores. Por ironia, alguns desses sugadores de verbas públicas cometem, nos períodos eleitorais, o disparate de exigir transparência e lisura no ambiente político, certamente para assegurar posição vantajosa para suas exigências posteriores.

    Na era atual, em que as massas podem e têm o direito de acesso à cultura, o teatro é inservível e inoperante, senão para pequenas platéias. O teatro é de natureza intimista e não pode atingir multidões. É caro, gera ínfimo impacto produtivo na economia e beneficia poucos espectadores e produtores.

    Super-produções têm surgido nos últimos anos, em São Paulo e Rio de Janeiro. Cópias minuciosas de musicais da Broadway, esses espetáculos nada acrescentam em termos culturais e servem apenas ao lucro de seus produtores, às remessas de royalties e para gerar assunto nas rodas de emergentes, que adoram ser vistos nesses eventos.

    O teatro está morto e deve ceder lugar ao cinema, que tem mais e maiores recursos cênicos, com mais qualidade e reprodutibilidade. A ribalta só serve para experiências e aprendizado de interpretação.



    Escrito por nada será como antes às 10h45
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    ESPAÇOS PÚBLICOS

    As grandes cidades brasileiras, com poucas exceções, têm carência de espaços públicos destinados ao lazer e convívio. Em São Paulo, essa característica é bastante conhecida e há muito discutida. Alguns bairros da capital paulista não possuem uma praça sequer. Noutros,  nas áreas mais nobres e na região central. os poucos parques e praças foram, nos últimos 30 anos, cercados por grades que vedam o desfrute a partir do anoitecer.

    Para minorar o problema, nas últimas décadas a cidade de São Paulo ganhou alguns parques (do Carmo, Anhangüera, etc.) que, apesar de atenderem carências locais das periferias onde se encontram, servem como exemplo a ser seguido pela administração pública. A cidade e sua população precisam de espaços similares, onde a vegetação e a tranquilidade podem oferecer alívio ao caos urbano. 

    Essa visão favorável à ampliação de espaços públicos, no entanto, não é consensual. Além dos referidos gradeamentos, realizados a título de segurança, outras medidas nocivas foram paulatinamente implementadas na cidade, também nas últimas décadas, que constituem verdadeira agressão aos moradores de certos bairros, pois vedam, mediante artifícios e supostas promoções de eventos, o desfrute de praças e parques municipais.

    O Parque do Ibirapuera, que já teve a própria sede da Prefeitura Municipal em seu interior, é exemplo do que não deve ser feito nesse tipo de logradouro. Aquele parque é literalmente tomado de assalto por exposições, estacionamentos, promoções, eventos, prédios, teatro e várias atividades que, para vantagem de todos, melhor seriam se instalados em outros locais. Afinal, ações de natureza cultural não precisam das preciosas áreas verdes e o parque, por sua vez, é suficiente sem elas. Alguns cidadãos argumentam que aquele parque (1,5 km²) é grande o suficiente para suportar vários equipamentos. Na realidade, mais de um terço de sua área é ocupada funções estranhas à sua natureza. Os freqüentadores, que formam multidões nos finais de semana, são obrigados, ainda, a driblar bicicletas e triciclos que invadem, às vezes em alta velocidade, as vias de circulação, para lucro e glória dos locadores de tais veículos.

    O problema da ocupação indevida desses espaços é "democrático" e apresenta exemplos em várias outras regiões. A partir da década de 1980, mais ou menos, teve início uma perversa modalidade de expulsão de usuários de praças. Na Praça da República, único espaço agradável do centro da cidade, dotado de vegetação frondosa e relativamente amplo, foi instalada há mais de 30 anos a conhecida "feira hippie", mais tarde ampliada com a denominada "praça doce". A primeira, destinada a vender objetos artesanais, hoje é entreposto de mercadorias de gosto duvidoso e, com poucas exceções, produzidas em fábricas informais. A segunda, que consiste em aproximadamente uma centena de barracas grotescas, atrai multidões de moscas e insetos que competem, com os incautos compradores, pelas calorias excessivas dos grosseiros quitutes ali comercializados. O resultado final, repetidos aos sábados e domingos, é o aspecto deprimente, a sujeira e o afastamento dos reais interessados em desfrutar da finalidade original da praça.

    Há outros exemplos de desrespeito ao cidadão. O bairro de Pinheiros, na zona Oeste, tem apenas uma praça, com aproximadamente 10.000 m², espremida entre duas ruas que concentram a maior parte do tráfego de automóveis da área. Essa praça possui algumas dezenas de árvores, poucos canteiros com gramado e folhagens e, na parte central, um play-ground destinado às crianças. Um dos dias úteis da semana é "propriedade de feirantes, que instalam barracas de comestíveis juntamente com a gritaria e tráfego de graciosos caminhões que normalmente circulam nesse tipo de evento. Mas é aos sábados que ocorre a articulação da barbárie. A bucólica praça é atacada, ainda durante a madrugada, por hordas de mercadores de trastes, que montam enorme quantidade de barracas, de modo a ocupar a totalidade da praça. Vendem uma infinidade de objetos de objetos supérfluos, estragados, alguns forjados como "raridades", mais roupas usadas, máquinas quebradas ou obsoletas, enfeites domésticos de mau-gosto, etc. Na esteira desse degradante evento semanal, as redondezas daquela praça são invadidas por vendedores ambulantes e suas mercadorias desnecessárias. 

    Do ponto de vista econômico, esse tipo de feira é predatório, pois não agrega produção (são objetos usados) e beneficia, exclusivamente, seus vendedores. Não gera empregos, não recolhe impostos, inferniza moradores das proximidades, gera congestionamentos de trânsito e força despesas públicas com varrição e recolhimento do onipresente lixo.

    Mas  o resultado mais perverso dessa ocupação indevida é social. Adultos e crianças são expulsos de preciosos locais de convívio e lazer, justamente nos finais de semana. Adicionalmente, o fluxo de multidões constrange o descanso e a tranquilidade necessários após a jornada semanal de atividades.

    Este é um problema reproduzido em muitas cidades, grandes ou pequenas, em todo o país. É preciso resgatar os espaços PÚBLICOS, antes que sejam totalmente privatizados.     

     



    Escrito por nada será como antes às 17h17
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    MULHERES

    A partir dos anos 60 do século passado, países como o Brasil finalmente entraram com maior vigor no chamado movimento feminista. Diferente do que ocorria há décadas na Europa e USA, até aquela altura, inclusive nas cidades grandes, a atividade da maioria das mulheres casadas era a de dona-de-casa.

    O contingente feminino nos ambientes de trabalho se restringia às funções subalternas, repetitivas e às tradicionais, como o magistério, telefonista, cabeleireira, etc. As exceções confirmavam a regra dominante e eram poucas as expressões femininas em posição de comando de empresas ou na política, áreas que, então, eram consideradas território masculino.

    Nas últimas quatro décadas, quase tudo mudou nesse panorama. Nichos de homens, como a Engenharia, foram invadidos pelas mulheres ; a pesquisa científica tem na contribuição feminina características bem marcadas ; na política, a participação delas foi multiplicada e não se restringe às questões reivindicatórias, como nos primórdios ; as mulheres são a maior parte do ambiente universitário .

    Na cidade de São Paulo, nos horários de maior movimento, é nítida a maioria feminina nos transportes públicos e quase equilibrada nos individuais. Milhões  de mulheres saem de suas casas, diariamente, para enfrentar filas, cruzamentos de ruas movimentadas, transportes lotados, calçadas esburacadas e com excesso de transeuntes, escritórios com mobiliário atravancado e exuberância de fiação, restaurantes com mesas ameaçadoras, detritos variados, multidões, fábricas e suas máquinas. Enfim, a mulher trabalhadora enfrenta as idênticas condições que são a queixa cotidiana do homem .

    Neste ponto do tema, a abordagem pode seguir vários caminhos, desde os essencialmente econômicos, até os culturais, que tratam das mudanças de comportamento nos ambientes doméstico e profissional, passando pelas questões de assédios variados, a legislação pertinente, etc. Mas este post serve à mesa os hábitos (literalmente) e costumes das vestimentas femininas.

    Desde que a História consegue registrar, as roupas masculinas são mais sóbrias, práticas e funcionais do que as correspondentes femininas. A explicação óbvia para isso remete ao fato de que o esforço físico, a locomoção, o uso de ferramentas, o manuseio de objetos, a caça, tarefas outrora quase exclusivas dos homens, exige versatilidade e conforto. No século XIX, tomado o exemplo dos estratos médios urbanos, enquanto os homens vestiam casaca, sobrecasaca, calças e polainas, as mulheres desfilavam frondosas sobreposições de faixas, corpetes, armações, panos variados, anáguas, rendas, colares e adereços. Não raro era preciso ajuda íntima para o ritual da vestimenta, para carregá-la e para manter-se em pé, pois algumas impediam o uso de assentos. Os costumes daquela época são um anacronismo impensável na atualidade.

    Hoje, mediadas as proporções, infelizmente o quadro é semelhante ao dos séculos precedentes. Os estratos médios urbanos regulam a vestimenta formal masculina com o costume de duas peças, com sapatos de formato padronizado, propícios à versatilidade. Com exceção do formato e largura de lapelas de paletó, largura das calças e detalhes menores, nos últimos oitenta anos, pelo menos, o traje básico masculino é o mesmo. Há quem deteste a opressão da gravata , dos vincos e até das cores repetitivas, mas essa vestimenta sobrevive e é razoável.

    Mas e as roupas das mulheres ? Nos mesmos estratos sociais em que reinam o paletó e a gravata, as mulheres continuam vítimas disfarçadas do padrão oitocentista. Desde 1930, mais ou menos, os trajes femininos oscilam entre as esfuziantes saias rodadas e as justíssimas, entre o exibicionista decote e as mangas exageradas, entre os saltos-agulha e os de calibre avantajado. A cada avanço da indústria têxtil, os diligentes estilistas estão a postos para as demonstrações de praxe, alguns com evidente cinismo, transformando suas hospedeiras em estandartes sofridos de suas fantasias. Os trajes formais femininos são incompatíveis com as condições urbanas atuais.

    Ninguém deve imaginar que trajes de homens e mulheres devem ser iguais. Ninguém pretende abrutalhar a mulher. Mas é deprimente encontrar trabalhadoras no metrô, por exemplo, extenuadas com as tarefas do dia e preocupadas em arrumar a fivela fora do lugar, com a saia que insiste em levantar vôo nas saídas de ar, com o salto preso nas ranhuras do piso e fragilizadas pelo desafio de equilibrar corpo, bolsa e objetos. O desafio, parece, é encontrar o padrão de vestimenta feminina adequado à "selva" urbana, de tal modo que a mulher obtenha, na comparação com o homem, equivalente funcionalidade.

    O estigma da mulher do lar foi superado. O estilo de vida da belle-époque  foi destruido. A mulher entrou, junto dos homens, no século presente. Para avançar mais, é preciso mudar e destruir o que atrapalha. 



    Escrito por nada será como antes às 14h39
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