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MULHERES
A partir dos anos 60 do século passado, países como o Brasil finalmente entraram com maior vigor no chamado movimento feminista. Diferente do que ocorria há décadas na Europa e USA, até aquela altura, inclusive nas cidades grandes, a atividade da maioria das mulheres casadas era a de dona-de-casa.
O contingente feminino nos ambientes de trabalho se restringia às funções subalternas, repetitivas e às tradicionais, como o magistério, telefonista, cabeleireira, etc. As exceções confirmavam a regra dominante e eram poucas as expressões femininas em posição de comando de empresas ou na política, áreas que, então, eram consideradas território masculino.
Nas últimas quatro décadas, quase tudo mudou nesse panorama. Nichos de homens, como a Engenharia, foram invadidos pelas mulheres ; a pesquisa científica tem na contribuição feminina características bem marcadas ; na política, a participação delas foi multiplicada e não se restringe às questões reivindicatórias, como nos primórdios ; as mulheres são a maior parte do ambiente universitário .
Na cidade de São Paulo, nos horários de maior movimento, é nítida a maioria feminina nos transportes públicos e quase equilibrada nos individuais. Milhões de mulheres saem de suas casas, diariamente, para enfrentar filas, cruzamentos de ruas movimentadas, transportes lotados, calçadas esburacadas e com excesso de transeuntes, escritórios com mobiliário atravancado e exuberância de fiação, restaurantes com mesas ameaçadoras, detritos variados, multidões, fábricas e suas máquinas. Enfim, a mulher trabalhadora enfrenta as idênticas condições que são a queixa cotidiana do homem .
Neste ponto do tema, a abordagem pode seguir vários caminhos, desde os essencialmente econômicos, até os culturais, que tratam das mudanças de comportamento nos ambientes doméstico e profissional, passando pelas questões de assédios variados, a legislação pertinente, etc. Mas este post serve à mesa os hábitos (literalmente) e costumes das vestimentas femininas.
Desde que a História consegue registrar, as roupas masculinas são mais sóbrias, práticas e funcionais do que as correspondentes femininas. A explicação óbvia para isso remete ao fato de que o esforço físico, a locomoção, o uso de ferramentas, o manuseio de objetos, a caça, tarefas outrora quase exclusivas dos homens, exige versatilidade e conforto. No século XIX, tomado o exemplo dos estratos médios urbanos, enquanto os homens vestiam casaca, sobrecasaca, calças e polainas, as mulheres desfilavam frondosas sobreposições de faixas, corpetes, armações, panos variados, anáguas, rendas, colares e adereços. Não raro era preciso ajuda íntima para o ritual da vestimenta, para carregá-la e para manter-se em pé, pois algumas impediam o uso de assentos. Os costumes daquela época são um anacronismo impensável na atualidade.
Hoje, mediadas as proporções, infelizmente o quadro é semelhante ao dos séculos precedentes. Os estratos médios urbanos regulam a vestimenta formal masculina com o costume de duas peças, com sapatos de formato padronizado, propícios à versatilidade. Com exceção do formato e largura de lapelas de paletó, largura das calças e detalhes menores, nos últimos oitenta anos, pelo menos, o traje básico masculino é o mesmo. Há quem deteste a opressão da gravata , dos vincos e até das cores repetitivas, mas essa vestimenta sobrevive e é razoável.
Mas e as roupas das mulheres ? Nos mesmos estratos sociais em que reinam o paletó e a gravata, as mulheres continuam vítimas disfarçadas do padrão oitocentista. Desde 1930, mais ou menos, os trajes femininos oscilam entre as esfuziantes saias rodadas e as justíssimas, entre o exibicionista decote e as mangas exageradas, entre os saltos-agulha e os de calibre avantajado. A cada avanço da indústria têxtil, os diligentes estilistas estão a postos para as demonstrações de praxe, alguns com evidente cinismo, transformando suas hospedeiras em estandartes sofridos de suas fantasias. Os trajes formais femininos são incompatíveis com as condições urbanas atuais.
Ninguém deve imaginar que trajes de homens e mulheres devem ser iguais. Ninguém pretende abrutalhar a mulher. Mas é deprimente encontrar trabalhadoras no metrô, por exemplo, extenuadas com as tarefas do dia e preocupadas em arrumar a fivela fora do lugar, com a saia que insiste em levantar vôo nas saídas de ar, com o salto preso nas ranhuras do piso e fragilizadas pelo desafio de equilibrar corpo, bolsa e objetos. O desafio, parece, é encontrar o padrão de vestimenta feminina adequado à "selva" urbana, de tal modo que a mulher obtenha, na comparação com o homem, equivalente funcionalidade.
O estigma da mulher do lar foi superado. O estilo de vida da belle-époque foi destruido. A mulher entrou, junto dos homens, no século presente. Para avançar mais, é preciso mudar e destruir o que atrapalha.
Escrito por nada será como antes às 14h39
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