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ESPAÇOS PÚBLICOS
As grandes cidades brasileiras, com poucas exceções, têm carência de espaços públicos destinados ao lazer e convívio. Em São Paulo, essa característica é bastante conhecida e há muito discutida. Alguns bairros da capital paulista não possuem uma praça sequer. Noutros, nas áreas mais nobres e na região central. os poucos parques e praças foram, nos últimos 30 anos, cercados por grades que vedam o desfrute a partir do anoitecer.
Para minorar o problema, nas últimas décadas a cidade de São Paulo ganhou alguns parques (do Carmo, Anhangüera, etc.) que, apesar de atenderem carências locais das periferias onde se encontram, servem como exemplo a ser seguido pela administração pública. A cidade e sua população precisam de espaços similares, onde a vegetação e a tranquilidade podem oferecer alívio ao caos urbano.
Essa visão favorável à ampliação de espaços públicos, no entanto, não é consensual. Além dos referidos gradeamentos, realizados a título de segurança, outras medidas nocivas foram paulatinamente implementadas na cidade, também nas últimas décadas, que constituem verdadeira agressão aos moradores de certos bairros, pois vedam, mediante artifícios e supostas promoções de eventos, o desfrute de praças e parques municipais.
O Parque do Ibirapuera, que já teve a própria sede da Prefeitura Municipal em seu interior, é exemplo do que não deve ser feito nesse tipo de logradouro. Aquele parque é literalmente tomado de assalto por exposições, estacionamentos, promoções, eventos, prédios, teatro e várias atividades que, para vantagem de todos, melhor seriam se instalados em outros locais. Afinal, ações de natureza cultural não precisam das preciosas áreas verdes e o parque, por sua vez, é suficiente sem elas. Alguns cidadãos argumentam que aquele parque (1,5 km²) é grande o suficiente para suportar vários equipamentos. Na realidade, mais de um terço de sua área é ocupada funções estranhas à sua natureza. Os freqüentadores, que formam multidões nos finais de semana, são obrigados, ainda, a driblar bicicletas e triciclos que invadem, às vezes em alta velocidade, as vias de circulação, para lucro e glória dos locadores de tais veículos.
O problema da ocupação indevida desses espaços é "democrático" e apresenta exemplos em várias outras regiões. A partir da década de 1980, mais ou menos, teve início uma perversa modalidade de expulsão de usuários de praças. Na Praça da República, único espaço agradável do centro da cidade, dotado de vegetação frondosa e relativamente amplo, foi instalada há mais de 30 anos a conhecida "feira hippie", mais tarde ampliada com a denominada "praça doce". A primeira, destinada a vender objetos artesanais, hoje é entreposto de mercadorias de gosto duvidoso e, com poucas exceções, produzidas em fábricas informais. A segunda, que consiste em aproximadamente uma centena de barracas grotescas, atrai multidões de moscas e insetos que competem, com os incautos compradores, pelas calorias excessivas dos grosseiros quitutes ali comercializados. O resultado final, repetidos aos sábados e domingos, é o aspecto deprimente, a sujeira e o afastamento dos reais interessados em desfrutar da finalidade original da praça.
Há outros exemplos de desrespeito ao cidadão. O bairro de Pinheiros, na zona Oeste, tem apenas uma praça, com aproximadamente 10.000 m², espremida entre duas ruas que concentram a maior parte do tráfego de automóveis da área. Essa praça possui algumas dezenas de árvores, poucos canteiros com gramado e folhagens e, na parte central, um play-ground destinado às crianças. Um dos dias úteis da semana é "propriedade de feirantes, que instalam barracas de comestíveis juntamente com a gritaria e tráfego de graciosos caminhões que normalmente circulam nesse tipo de evento. Mas é aos sábados que ocorre a articulação da barbárie. A bucólica praça é atacada, ainda durante a madrugada, por hordas de mercadores de trastes, que montam enorme quantidade de barracas, de modo a ocupar a totalidade da praça. Vendem uma infinidade de objetos de objetos supérfluos, estragados, alguns forjados como "raridades", mais roupas usadas, máquinas quebradas ou obsoletas, enfeites domésticos de mau-gosto, etc. Na esteira desse degradante evento semanal, as redondezas daquela praça são invadidas por vendedores ambulantes e suas mercadorias desnecessárias.
Do ponto de vista econômico, esse tipo de feira é predatório, pois não agrega produção (são objetos usados) e beneficia, exclusivamente, seus vendedores. Não gera empregos, não recolhe impostos, inferniza moradores das proximidades, gera congestionamentos de trânsito e força despesas públicas com varrição e recolhimento do onipresente lixo.
Mas o resultado mais perverso dessa ocupação indevida é social. Adultos e crianças são expulsos de preciosos locais de convívio e lazer, justamente nos finais de semana. Adicionalmente, o fluxo de multidões constrange o descanso e a tranquilidade necessários após a jornada semanal de atividades.
Este é um problema reproduzido em muitas cidades, grandes ou pequenas, em todo o país. É preciso resgatar os espaços PÚBLICOS, antes que sejam totalmente privatizados.
Escrito por nada será como antes às 17h17
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