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    TEATRO NA ATUALIDADE

    A cultura ocidental deve boa parte de seu caráter ao teatro. Na Grécia antiga, as apresentações dramáticas eram essenciais e, mais tarde, na Itália, a Commedia del'Arte gerou signos teatrais que perduram até hoje.

    O cinema deve grande parte de sua estrutura ao teatro. Signos, cenografia, iluminação, interpretação e vestuário respeitam códigos elaborados e experimentados durante séculos, milênios, nos palcos.

    Interpretar papéis, fantasiar situações, criar ficções e, com isso, alargar a própria cultura e sondar possibilidades é da natureza da racionalidade humana. A arte caminha com o homem, seu criador. E o homem aprende com a arte, sua criatura.

    Do teatro de vanguarda aos rituais primitivos, a encenação está presente em todas as culturas. A cerimônia do Kuarup tem a mesma genética das obras de Shakespeare, cada uma apresentando seu respectivo teor de dramaticidade e adequação a culturas tão distintas.

    Mas o teatro, aquele espetáculo realizado em recintos fechados ou abertos, com delimitação entre platéia e palco, cobrança de ingressos, maquiagem e vestuário produzidos e dirigidos, padece de doença sem perspectiva de melhora. Está morto ou, pelo menos, em estado agonizante.

    O Brasil tem minúscula tradição teatral. Em meados do século XX foram feitas as primeiras experiências realmente profissionais. A partir daquela época o país experimentou, em diminuta escala e em poucas décadas, a trajetoria percorrida em séculos, no solo europeu. Sófocles, Somerset Maugham, Shakespeare, Brecht foram escalados para destruir o teatro de revista que era, então, a opção rotineira nos palcos. Mas esse teatro começou mal, por aqui. Seus introdutores criaram salas pequenas, para acomodar apenas as elites do país ainda analfabeto. O preço dos ingressos, cada vez mais caros, serviram, desde o início, como credencial provinciana. Freqüentar o teatro ainda é, para muitos, visto de entrada e permanência no seio das elites econômicas e intelectuais, mesmo que a platéia não entenda absolutamente nada a respeito do tema da peça ou das intenções de seu diretor. Assistir uma peça e depois jantar em restaurante de couvert ameaçador e pratos ofensivamente rasteiros é programa habitual de uns poucos conhecedores, realmente interessados, acompanhados de arrivistas ignorantes, cujo único mérito cultural é a carteira recheada de cartões de crédito.

    Há mais, ainda. A soma total das poltronas disponíveis em todos as salas de teatro da maior cidade brasileira atinge poucos milhares de lugares. Esse dado, isoladamente, demonstra que as chamadas damas do teatro e respectivos cavalheiros, aclamados e obedientemente aceitos pela população são, na realidade, criações da mídia, pois a imensa maioria das pessoas jamais viu ou verá qualquer apresentação teatral. Sem as medíocres novelas da TV, atores "consagrados" do teatro poderiam caminhar pelas ruas sem reconhecimento. Sem os enormes anúncios subsidiados em jornais, quase ninguém saberia do teor das peças em cartaz. Sem os palpites geralmente equivocados dos "críticos", poucos poderiam, pelos títulos das peças, diferenciar uma tragédia grega de mais um exemplar do besteirol ou das oportunistas montagens que exploram a fama dos atores da televisão.

    A cada nova temporada, os gabinetes de Brasília são invadidos pelo séquito do teatro. Seus integrantes, legítimas testemunhas do velório teatral, desfilam seus trajes planejados, na tentativa rotineira de atrair holofotes para sua proclamada "luta" pela manutenção da cultura. O interesse real é, claro, a busca de patrocínios e incentivos fiscais para a manutenção de seus luxos, à custa da rarefação de verbas para objetivos maiores. Os "heróis" do teatro nacional querem dinheiro e benção públicos para o custeio de suas investidas em produções de ingressos exorbitantes para platéias a cada vez menores. Por ironia, alguns desses sugadores de verbas públicas cometem, nos períodos eleitorais, o disparate de exigir transparência e lisura no ambiente político, certamente para assegurar posição vantajosa para suas exigências posteriores.

    Na era atual, em que as massas podem e têm o direito de acesso à cultura, o teatro é inservível e inoperante, senão para pequenas platéias. O teatro é de natureza intimista e não pode atingir multidões. É caro, gera ínfimo impacto produtivo na economia e beneficia poucos espectadores e produtores.

    Super-produções têm surgido nos últimos anos, em São Paulo e Rio de Janeiro. Cópias minuciosas de musicais da Broadway, esses espetáculos nada acrescentam em termos culturais e servem apenas ao lucro de seus produtores, às remessas de royalties e para gerar assunto nas rodas de emergentes, que adoram ser vistos nesses eventos.

    O teatro está morto e deve ceder lugar ao cinema, que tem mais e maiores recursos cênicos, com mais qualidade e reprodutibilidade. A ribalta só serve para experiências e aprendizado de interpretação.



    Escrito por nada será como antes às 10h45
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