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    ESPAÇOS PÚBLICOS II

    A prefeitura de São Paulo patrocinou, nos dias 26 e 27 de abril (sábado e domingo), o evento denominado "Virada Cultural". Consiste em palcos armados em alguns locais do centro da cidade, cada qual apresentando uma modalidade musical. Um de rock, outro de samba, espaço para piano, rap, dance-music, etc.

    À primeira vista, a promoção é simpática, pois abrange gostos diversos e atrai pessoas que não costumam circular na decadente área central, o que pode produzir alguma revitalização. Mas não é assim que as coisas são.

    Primeiro, para justificar os alegados mais de R$ 6.000.000,00 (seis milhões de reais) gastos no evento, tem início a tradicional guerra de números de participantes. Alega-se que 1.000.000 (um milhão) de pessoas (*) assistiram aos diversos shows apresentados em cada palco. Essa mentira grosseira, verificável visualmente por qualquer pessoa dotada de sensatez que tenha circulado e presenciado as apresentações, demonstra a ansiedade da administração em apresentar resultados retumbantes. Com um detalhe, apenas, é possível desmentir esses números : as três estações do metrô envolvidas na área dos palcos (Pedro II, Anhangabaú e República), simplesmente não têm capacidade diária para suportar tamanho contingente. Se um milhão de pessoas foram aos locais, é de se esperar que voltaram a suas casas. Ora, 2 milhões de passageiros equivalem a 65% do movimento diário do metrô, que congestiona absolutamente todas as aproximadamente 60 estações do sistema. Imagine-se 2/3 desse total em apenas 3 (três) estações e se obtém a dimensão da mentira.

    Alguns podem lembrar a revitalização prometida para a área central e observar que eventos dessa natureza podem trazer resultados favoráveis. Outra inverdade ! Aproximadamente 100.000 pessoas moram no centro de São Paulo e uma vez ao ano são "brindadas" com esse evento duvidoso, que literalmente inferniza a área durante 24 horas seguidas, com sonoridades agressivas e de gostos duvidosos espalhados por potentes e enormes instalações. Para piorar, a montagem dos palcos, realizada nas madrugadas antecedentes, é composta de incessante bater de metais e armações de aço e respectivas gritarias de operários e roncos de enormes caminhões. Imediatamente após o encerramento da barbárie, a desmontagem é feita às pressas, ocupando toda a madrugada seguinte, de modo que a segunda-feira (hoje) testemunha apenas a imundície deixada nas ruas costumeiramente abandonadas.

    Questões pertinentes :

    1. Qual o valor cultural de uma apresentação da cantora outrora conhecida como Maria Alcina, realizada às 3:00 h (madrugada), em pleno Largo do Arouche, que se caracteriza por prédios em sua maioria residenciais ?

    2. Qual critério estabelece que a Praça da República deve ser agraciada com sonoridade estridente e a Praça Dom José Gaspar dispor de apresentações exclusivamente pianísticas e suaves ?

    3. Qual critério e quem se encarregou de contratar (e pagar) grupos e "artistas" desconhecidos, utilizando dinheiro público, numa cidade cheia de carências ?

    4. O que um evento de 24 horas seguidas traz de proveitoso à área central, além de sujeira, poluição sonora e gastos desnecessários ?

    5. Por que a verba gasta não é distribuida em eventos equilibrados, ao longo do ano e nas demais regiões da cidade ?

    A cidade inteira é imunda, especialmente na região central. Se a verba da "virada cultural" fosse aplicada (mesmo !) na limpeza de ruas, haveria melhor proveito, porque higiene urbana também é cultural !!!!!!

    Quem, além dos "artistas" e da classe média deslumbrada que acorreu aos shows se beneficiou desse assalto aos cofres municipais ?

     

    (*) ATUALIZAÇÃO : Matéria publicada no Caderno 2 do jornal "O Estado de São Paulo" menciona declaração do Secretário de Estado da Cultura que atribui aos seguranças e trabalhadores que atuaram no evento a informação de que 4 (quatro) MILHÕES de pessoas passaram pelas apresentações tratadas neste post.

     

     



    Escrito por nada será como antes às 11h20
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