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    OCUPAÇÕES

    Utilizo, para guardar um simplório meio de transporte, os serviços de uma garagem localizada na região central de São Paulo. É um grande galpão de três andares, ao qual se chega após percorrer algumas dezenas de metros de um corredor de entrada, ao ar livre, em via de grande movimento. O sistema de funcionamento consiste em estacionar o veículo na entrada do galpão, com a chave no contato e passar ao manobrista que, em troca, entrega um comprovante e dirige o automóvel para a vaga conveniente. Com o tempo e a conquista da confiança, o comprovante é dispensado por muitos dos costumeiros usuários, incluido o que escreve o presente.

    Mas o interessante não é o sistema de funcionamento ou a dimensão do prédio. No período noturno o estabelecimento é servido por dois manobristas e um deles tem atitudes incompreensíveis. Invariavelmente, ao chegar ao galpão, o usuário se depara com a pergunta - O senhor veio buscar seu carro ?  A vontade maior é a de responder que se trata de um passeio turístico ou que estamos ali para comprar jornal ou salgadinhos, porque não se conhece pessoa que adentre garagens com intenção diferente de deixar ou buscar algum veículo, principalmente quando se trata de mensalista conhecido. É bem simples : ao entrar motorizado, o usuário pretende guardar o veículo ; ao chegar a pé, a operação é inversa.

    Mas aquele manobrista é mais pitoresco. Ao receber a confirmação de que o usuário realmente pretende seu veículo, invariavelmente ele dá duas voltas por entre os veículos estacionados no pavimento térreo e, depois, efetivamente se dirige aos andares superiores, que é onde estão os carros dos mensalistas. Ao trazer o automóvel, após injustificada demora, o manobrista costuma iniciar conversa sobre assuntos variados, como seu vizinho desempregado, o cachorro da filha ou que a marmita de ontem estava azeda. O interessante é que a conversa se estende sem que o manobrista saia do carro, o que implica em dedicação diplomática para retirá-lo e retomar a posse.

    Na semana passada a situação atingiu o paroxismo. Este autor foi chamado com urgência à garagem, às 5:00 da madrugada. O motivo do apelo foi, segundo o mesmo manobrista, que o veículo havia sido deixado sem as chaves. De nada adiantou argumentar que, como estava estacionado no andar superior, a praxe havia sido obedecida. A solução, depois de muitas negativas e insistências, veio com o exame dos demais veículos chegados em horário parecido, na noite anterior e....surpresa !!! A chave em questão estava sobre o banco de outro carro, estacionado em outro pavimento.

    Quais insondáveis preocupações afligem o manobrista ? Estaria acometido de alguma síndrome laboral derivada da monótona repetição de atividades ?

     

     



    Escrito por nada será como antes às 10h57
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