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INTERCÂMBIOS
Computadores são máquinas convenientes, em certos casos. Mas são irascíveis contra amadores, vítimas indefesas de ardilosas trapaças planejadas no Vale do Silício.
Computadores são seres dotados de comunicação com milhões de outras criaturas semelhantes e é possível que, em conjunto, algum dia comecem o ataque final contra pessoas de boa índole e outras nem tanto.
Mas o assunto deste post é mais prosaico e diz respeito à troca das caixas de som de meu PC, que é novo, mas cujas caixas originais têm sonoridade e qualidade lastimáveis. As caixas novas, de design redondo e atraente ficaram, por preguiça e algumas tarefas agendadas, sobre a geladeira do escritório. Por uma semana compuseram, com a amiga, humorada e interessante parceria . Pareciam orelhas do Mickey.
A partir do segundo ou terceiro dia da experiência de convívio, o refrigerador passou a apresentar vivacidade e sinais jamais vistos. Parecia sorrir quando sua porta era aberta, as pedras de gelo se soltavam das formas com mais facilidade e até o ruido do compressor diminuiu. Cheguei a acessar o site de um fabricante, disposto a enviar sugestão para o desenvolvimento de um modelo dotado de orelhinhas, capazes de redimir décadas de injustiças contra as geladeiras, surdas e sem voz mas sempre dispostas, pela simples abertura das portas, a oferecer água gelada e proteger alimentos dos infortúnios climáticos.
Um dos maiores escritores que o mundo conheceu prestou atenção nas bicicletas e reclamou que elas, apesar de dóceis e de comportamento discreto, sofrem injusto preconceito, proibidas de entrar em certos locais. É hora de arregimentar apoio às geladeiras, que prestam relevantes serviços e não têm como reivindicar seus direitos e nem escutar as sórdidas articulações familiares, que tramam suas abruptas substituições com argumentos frívolos, como a necessidade de combinar a mesa e os armários da cozinha com um modelo mais novo. Nessas horas, aquela que foi a salvadora de pudins e sorvetes é relegada ao esquecimento num canto sombrio da garagem da casa e, quando muito, tem suas prateleiras transformadas em depósito de ferramentas e trastes inúteis, desligada e abandonada. Isso é injusto e não pode continuar !!!
Tudo o que é publicado neste blog envolve responsabilidade política e respeito à meia dezena de leitores habituais. Por essa razão, realizei uma pequena enquete com amigos para testar a proposta de emancipação das geladeiras. O argumento principal aponta que aparelhos de rádio, televisores, computadores, cd players e até os aposentados toca-discos dispõem de "orelhas" sonoras, enquanto as geladeiras permanecem como deficientes áudio-fônicas. As críticas mais consistentes partiram de uma economista que, com argúcia e espírito democrático, apontou a necessidade de estender a cidadania aos liquidificadores, batedeiras, processadores e aspiradores. Repliquei com firmeza, dizendo que esses seres são de natureza violenta e realizam suas funções de modo estridente, sem se importar com os passantes e demais objetos. A economista se limitou a sorrir e admitir a veracidade dos argumentos.
Escrito por nada será como antes às 16h54
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