 |
MENTIRAS
A indústria do cinema procura atrair espectadores com criatividade de cenários, cores, figurinos e atores conhecidos. Mas a voracidade de chamar atenção costuma gerar deturpações da realidade.
Há alguns anos atrás, uma produção ambientada na Roma antiga (O Gladiador) conseguiu concentrar, em aproximadamente 2 horas de projeção, várias incoerências e mentiras que contribuem para gerar confusões históricas nos espectadores. É claro que uma obra de ficção pode conter vontades e expressões próprias, segundo as intenções estéticas de seus criadores. Mas, se a ficção é ambientada na antiga Roma, deve respeitar, a título de verossimilhança, as condições reais vigentes naquela localidade, na respectiva época.
Uma das cenas de O Gladiador apresenta o protagonista diante de uma infinidade de elmos, capacetes, escudos e armas de vários formatos e tamanhos, expostos numa enorme bancada, para serem escolhidos. Quem tem mediana noção acerca das condições produtivas da época sabe perfeitamente que tal diversidade consumista era impensável naquela altura, especialmente para escravos prestes a serem apresentados na arena do Coliseu. A riqueza romana jamais foi sinônimo do consumismo de classe-média vigente na atualidade. A população da sede do Império, em algumas ocasiões, encontrou dificuldades de abastecimento de alimentos e de outros suprimentos. Armas e proteções corporais foram, por muito tempo, artigos de luxo.
No mesmo filme, algumas das principais cenas têm o Coliseu romano como "protagonista". Nada mais mentiroso do que as dimensões do cenário utilizado. Quem conhece as ruinas daquele edifício, que mantém o perímetro intacto, sabe perfeitamente que seu interior comportaria, no máximo, entre 5000 e 10.000 espectadores apinhados nas íngremes arquibancadas. Sua magnífica e imponente arquitetura não esconde o fato de que a dimensão de sua arena é modesta se comparada aos ginásios esportivos da atualidade. No entanto, o "Coliseu" daquela película foi multiplicado, transformado em enorme construção que humilharia a verdadeira.
Na época do lançamento do filme, algumas revistas e publicações especializadas chegaram a afirmar que o Coliseu, quando em funcionamento, comportaria público de 50.000 pessoas. Além de mentirosa, essa afirmação pode levar a outros graves equívocos a respeito da história de Roma. Aquela cidade, que foi sede do Império e origem das conquistas territoriais, sempre foi governada como cidade-Estado. Suas conquistas territoriais sempre foram anexadas como províncias, não raro governadas de forma autônoma, ainda que tributárias dos recolhimentos e decisões políticas da sede romana.
Na Roma antiga, a sofisticação arquitetônica estava restrita à área das atuais ruinas do Foro Romano, que concentrava as edificações públicas, os templos sagrados e o próprio Coliseu, numa das extremidades. As demais partes da cidade, nem todas ligadas por continuidade urbana, eram dotadas de construções precárias, com caótico e apertado traçado viário. Afinal, a antiga Roma era apenas uma aldeia crescida desordenadamente.
Alguns especuladores costumam passar a idéia de que aquela cidade chegou a possuir, em sua fase áurea, mais de 1 milhão de habitantes, em meados do século II desta era. Telas e papéis aceitam qualquer escrita mas, em contrapartida, atestam a ignorância de seus autores. Cidades com essa magnitude demográfica exigem enorme capacidade de suprimento e equivalente poder de gerar ocupação de trabalho para seus moradores. As fontes d'água e os aquedutos romanos seriam insuficientes sequer para saciar a sede de tamanho contingente. A produção de alimentos na época, ainda primitiva, não teria condições de sustentar uma metrópole, mesmo a "papa" de trigo que consistia a refeição típica dos romanos. E, principalmente, é sabido que as ocupações daquela cidade não eram industriais, mas meramente manufatureiras e artesanais, incapazes de gerar trabalho para enorme massa populacional. Não é temerário afirmar que a antiga Roma teve, no máximo, entre 50.000 e 100.000 habitantes.
Hollywood e similares não constituem fontes confiáveis de dados históricos e apenas promovem o consumo de futilidades.
Escrito por nada será como antes às 11h36
[]
[envie esta mensagem]
[link]
|
 |
 |