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O CAMINHO DA CRISE
A crise financeira que atualmente abate, em média, um grande banco dos USA por semana, tem servido para que analistas de todas as colorações políticas busquem holofotes para suas falas. Entretanto, quase todas as análises produzidas se caracterizam pela explicação dos fatores imediatos que redundaram na falência de aristocráticas e supostamente sólidas instituições bancárias.
Não é preciso ser candidato ao prêmio Nobel de Economia para afirmar que as especulações imobiliárias, que inflaram preços de imóveis e permitiram sobreposições hipotecárias lucrativas, ao exaurirem as expectativas, fizeram os preços voltarem aos níveis razoáveis e, então, deixaram títulos e prestações impagáveis. Esse tipo de "análise" pode ser feito por qualquer corretor de imóveis medianamente informado e não acrescenta nada ao panorama econômico.
Análises macroeconômicas dignas devem ser mais amplas do que as circunstâncias imediatas e precisam envolver processos maiores, de modo que seja possível avaliar o ritmo e a direção dos movimentos do sistema capitalista.
Nos USA, há algumas décadas são apresentadas certas facetas de grandes e importantes modificações no aparato produtivo e financeiro. No início da década de 1980 aquele país começou a desmontar vários setores produtivos, como tecelagens, confecções, manufaturas em geral e outros, num processo que coincidiu com a ampliação das atividades financeiras e estagnação de cidades outrora industriais. Regiões fabrís foram abandonadas e, como resultado prático, o ano de 1987 apresentou séria crise nas bolsas de valores. Posteriormente, a crise das cotações da Nasdaq demonstrou o que qualquer manual capitalista carrega nas primeiras páginas : a atividade financeira é dependente e reflexo da atividade produtiva. O conhecimento e o domínio da informação não garantem, isoladamente, como querem certos teóricos, a sustentação de nenhuma economia. A humanidade não está, como insistem os mesmos teóricos, em suposta fase pós-industrial. Indústria desenvolvida e provida de avançada tecnologia ainda é indústria. Afinal, a humanidade consome produtos industrializados e não se alimenta de bytes e softwares.
Mas a chamada era Reagan, grotescamente seguida pela "dinastia texana", insistiu na tentativa de distanciar a economia do império decadente das frugalidades produtivas, seja pela terceirização da produção, seja pela pura e simples importação de produtos industriais. O resultado dessa política, claro, levou à queda do poder de consumo de milhões de famílias que, antes, dependiam das atividades industriais que foram deslocadas. O mercado financeiro, apesar do expressivo crescimento de suas atividades, não consegue e não precisa incorporar grandes massas de operadores.
Esse quadro complexo (baixo poder de compra X mercado financeiro em expansão) levou a que os "gênios" da especulação criassem mecanismos capazes de gerar crescimento econômico mediante o artifício da especulação imobiliária, cujos frutos, mediante as renegociações de hipotecas, permitiram que vastos setores da chamada classe-média elevassem seus padrões de consumo, o que permitiu a continuidade do crescimento da economia, porém com medidas artificiais.
Para usar um chavão, a crise das hipotecas é apenas a ponta do iceberg. A origem verdadeira da atual crise (outras serão sobrepostas) está, na realidade, na perda de capacidade de consumo dos cidadãos dos daquele país e na virtual estagnação de sua economia. O gigantismo da economia norteamericana e a desproporção comparativa com outros países levou à desastrada mudança de produção acima mencionada e, para mitigar seus péssimos resultados, formulou a artificial valorização dos imóveis. Agora é hora de pagar a conta, que é altíssima e não se resume aos US$ 700 bilhões despendidos no socorro aos bancos.
QUADRO ATUAL. O mercado financeiro está depauperado e em crise de confiança, além de parcialmente atrelado ao Estado. A perspectiva é de endurecimento regulatório. A inflação é ascendente. O dólar tende a ser desvalorizado. A produção industrial restante tende a diminuir em quantidade. A curto e médio prazos, haverá maior internalização da descomunal quantidade de moeda espalhada em reservas monetárias de diversos países mundo afora, com resultados previsíveis no meio circulante. O Federal Reserve (banco central) tem pouca margem de manobra para estimular a economia, pois a taxa básica de juros está em torno de 2% e não pode baixar mais que residualmente. O endividamento dos cidadãos alcança, na média, índices recordes e indica diminuição na capacidade de obtenção de créditos.
A queda da economia dos USA leva às quedas paralelas das economias do México, atrelado ao Nafta, e da China, dependente do comércio exterior com o império decadente. Para compensar a queda de suas exportações, o governo chinês terá de despejar suas reservas em dólares, porém com cautela e velocidade estritamente controladas, para evitar maiores perdas com a desvalorização. As convulsões sociais mexicanas, atualmente restritas a certas províncias, podem se tornar generalizadas devido ao provável desemprego decorrente da diminuição produtiva.
DIAGNÓSTICO FINAL. A atual crise financeira demonstra o esgotamento do modelo capitalista aplicado na sede do império. A moeda dos USA perde sua expressão principal, que é a de servir como padrão das relações comerciais internacionais, conforme estabelecido no Acordo de Bretton Woods. Novos acordos internacionais deverão ser realizados para estabelecer alguma moeda virtual ou real, calcada na média de cotações de várias outras (inclusive o Real brasileiro), para servir de base nas transações comerciais.
UMA COMPARAÇÃO. Alguns analistas comparam a dimensão da atual crise com a de 1929. Ambas são financeiras, mas é importante lembrar que suas origens são completamente diferentes. A de 1929 se originou do excesso de estoques de produção que se revelaram infinanciáveis devido à incapacidade de consumo, com a consequente desvalorização dos papéis acionários. A atual decorre da capacidade artificial de consumo gerada por meios especulativos e da incapacidade de rolagem do estoque acumulado das dívidas.
O império está mais próximo do fim.
Escrito por nada será como antes às 11h14
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