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    A FARSA VERDE

    Este blog tem por método de análise política a impessoalidade, isto é, as personalidades e agentes políticos são encarados apenas como portadores provisórios de posições, grupos e forças políticas da sociedade e, claro, alguns representam meras contabilidades conjunturais dos processos eleitorais, sem expressão política ou representatividade da sociedade civil.

    Análises políticas devem contemplar as forças e posições em disputa na sociedade, sem espaço para a personalização política, inclusive porque atores e agentes costumam, geralmente, alternar suas posições e filiações partidárias coforme as conveniências, circunstâncias e eventuais facilidades político-eleitorais. "Análises" calcadas em nomes e posições pessoais são da lavra rasteira do jornalismo de baixa qualidade, que não agrega conhecimento, não avança a consciência política e busca transformar, perante os incautos, a formalidade em conteúdo palatável e supostamente profundo.

    Mas em algumas ocasiões a personalização é inevitável, especialmente quando alguma articulação é posta no cenário político em torno de um agente específico. É o caso do anunciado e provável lançamento da candidatura da senadora Marina Silva (Sem Partido/AC) à Presidência da República, supostamente mediante sua futura filiação ao Partido Verde.
    A senadora em questão, cuja trajetória pessoal é, sem dúvida, exemplo de coragem, persistência e enorme esforço para superar as adversidades da pobreza e ignorância, acumulou respeitabilidade e constitui referência obrigatória nos debates sobre meio-ambiente e, também, sobre a superação das desigualdades sociais impostas às parcelas majoritárias da sociedade.
    Parece suficientemente claro que tal candidatura tem o propósito de confundir e talvez desorganizar parte do contingente eleitoral, principalmente se levado em conta o histórico recente do Partido Verde, com sua trajetória oscilante e meramente carreirista. Esse partido apresenta, em seu programa, vagos e propositalmente tênues propósitos sociais, recobertos por discursos dirigidos à suposta busca de sustentabilidades ambiental do desenvolvimento econômico sem, no entanto, apresentar o ferramental e o método conveniente para atingir esses objetivos.
    Não é exagero afirmar que o Partido Verde nacional, como seus congêneres e homônimos em outros países, é instrumento mercadológico gerado para ocupar determinados nichos do "mercado eleitoral", constituidos pelas parcelas de eleitores insatisfeitos com o panorama político vigente em boa parte das chamadas democracias contemporâneas e pelos alijados do espectro político ideologicamente definido. Afinal, qual é o teor social de tais partidos ?  Quais estratos sociais conformam seus filiados e militantes ? E, principalmente, quais os arcos de alianças de que participam nas diversas conjunturas políticas ?
    As respostas a essas perguntas podem confirmar o enunciado de que o(s) Partido(s) Verde(s) é (são) oscilante(s) e vaga(m) pela direita, centro e esquerda segundo conveniências e interesses muito elucidativos e credores de baixas felicitações.
    De outro lado, a senadora mencionada, apesar de sua disciplinada trajetória e exemplar carreira, pouco acrescenta às necessidades políticas e sociais do país. É conhecida sua religiosidade evangélica neo-pentecostal, sua posição contrária ao aborto em quaisquer circunstâncias, sua negativa às pesquisas com células-tronco e, recentemente, foi divulgada sua posição favorável ao "ensino" do criacionismo como suposta alternativa teórica ao evolucionismo. Ou seja, em questões cruciais e delicadas a senadora é adepta de posições opostas às  socialmente progressistas. Resta saber suas mirabolantes propostas de desenvolvimento econômico fora do extrativismo florestal e capazes de abranger as massas de trabalhadores urbanos.
    Parece óbvio que essa candidatura não conseguirá espaço amplo no decorrer do processo eleitoral, pelas fragilidades pessoal e do partido que a acolhe. Também não é difícil prever que o aparato de mídia, em grande escala, fará a promoção retumbante de tal candidatura para, a certa altura, descartar a opção em favor de outra mais palatável aos interesses em disputa. 
    É uma candidatura sem estratégia, gerada apenas como instrumento tático em apoio de outra(s).    
     

     

     



    Escrito por nada será como antes às 18h12
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