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    TRISTE TRADIÇÃO

     

    A suposta "invasão" de uma área favelada da cidade do Rio de Janeiro por delinquentes de outra área motivou incursões militares das forças policiais. No decorrer das ações, um helicóptero foi atingido e, segundo declarações oficiais, por "heroismo do piloto" a aeronave pousou em campo aberto e "evitou mortes de inocentes" que seriam atingidos se a queda ocorresse sobre habitações.

    A linguagem cuidadosa das notas oficiais não consegue esconder, no entanto, a triste realidade que ronda os aglomerados habitacionais das parcelas oprimidas daquela cidade e seus infelizes moradores.

    Não é preciso ser perito em acidentes aeronáuticos para perceber que o pouso/queda de helicóptero sobre casas dispostas em áreas íngremes seria mais desastroso para seus ocupantes do que o efetivamente ocorrido no pequeno campo de futebol da comunidade. A intenção dos pilotos foi, certamente, garantir melhores condições de seu próprio salvamento do que para preservar possíveis vítimas dentre os moradores. Aliás, o helicóptero acidentado estava em ação sobre a comunidade, com as costumeiras posições de ataque e armas apontadas justamente para os transeuntes locais.

    O helicóptero abatido e as mortes de alguns de seus ocupantes, que não servem de regozijo para pessoas sensatas, aclaram as reais intenções das incursões policiais nas áreas carentes e sobre seus habitantes.

    O enterro dos policiais mortos foi transformado em solenidade para a mídia e as homenagens ressaltaram as qualidades "heróicas" dos agentes que, como outros muitos colegas, dedicam sua rotina a amedrontar trabalhadores e crianças, com armas, carros blindados, portas arrombadas e, não raro, execuções de jovens inocentes comumente apontados como "perigosos traficantes".

    As contradições são evidentes. Policiais feridos ou mortos são exaltados como heróis e moradores executados são arrastados, jogados em camburões, depositados em hospitais e contabilizados em meras cifras oficiais que apresentam os resultados fatais da "guerra do tráfico", expressão utilizada como eufemismo para designar a opressão praticada pelos contingentes a soldo do Estado. Quando surgem vítimas entre os opressores, a vingança é imediata e a tradição consiste em multiplicar, no atacado dos pobres habitantes, as baixas no varejo ocorridas entre os fardados.

    Mas a ilustração mais colorida (em todos os sentidos) das atividades fardadas veio a público nas últimas horas. No centro da cidade maravilhosa, uma viatura policial e seus fardados ocupantes (um deles capitão) foram filmados em atividades de claro conluio com ladrões que acabavam de ferir mortalmente um membro do grupo denominado Afro Reggae. Além da omissão de socorro à vítima, as imagens gravadas mostram que o produto do latrocínio foi levado à viatura e os autores do delito, dispensados. Trata-se, como é óbvio, dos crimes de associação criminosa, co-autoria em latrocínio, omissão de socorro e outros associados ao fato de os envolvidos serem agentes policiais.

    Com todos esses dados, acrescidos das claras imagens gravadas em vídeo, o culto comandante da corporação (*), em entrevista à imprensa, declarou que os fardados são "suspeitos de desvio de conduta", que é outro eufemismo do jargão opressor, desta vez utilizado para proteger os criminosos com distintivos e credenciados para o extermínio e controle das classes subalternas.

    Enquanto os problemas sociais e as carências econômicas da população forem tratados como "casos de polícia", nos mesmos moldes tradicionais da república velha, os conflitos cariocas ou de qualquer outro lugar terão continuidade.

    ________

    (*) O culto comandante da corporação afirmou, em entrevista coletiva a respeito da ocorrência com o helicóptero, desconhecer a exato calibre do "projeTÍL" (a sílaba tônica é a última), em lamentável repetição das habilidades linguísticas de autoridades (militares e civís), as quais certamente desconhecem, pela "rigorosa seleção de seus quadros", a ordem paroxítona da palavra "projÉtil".   




    Escrito por nada será como antes às 17h48
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