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O CAMINHO DA CRISE
A crise financeira que atualmente abate, em média, um grande banco dos USA por semana, tem servido para que analistas de todas as colorações políticas busquem holofotes para suas falas. Entretanto, quase todas as análises produzidas se caracterizam pela explicação dos fatores imediatos que redundaram na falência de aristocráticas e supostamente sólidas instituições bancárias.
Não é preciso ser candidato ao prêmio Nobel de Economia para afirmar que as especulações imobiliárias, que inflaram preços de imóveis e permitiram sobreposições hipotecárias lucrativas, ao exaurirem as expectativas, fizeram os preços voltarem aos níveis razoáveis e, então, deixaram títulos e prestações impagáveis. Esse tipo de "análise" pode ser feito por qualquer corretor de imóveis medianamente informado e não acrescenta nada ao panorama econômico.
Análises macroeconômicas dignas devem ser mais amplas do que as circunstâncias imediatas e precisam envolver processos maiores, de modo que seja possível avaliar o ritmo e a direção dos movimentos do sistema capitalista.
Nos USA, há algumas décadas são apresentadas certas facetas de grandes e importantes modificações no aparato produtivo e financeiro. No início da década de 1980 aquele país começou a desmontar vários setores produtivos, como tecelagens, confecções, manufaturas em geral e outros, num processo que coincidiu com a ampliação das atividades financeiras e estagnação de cidades outrora industriais. Regiões fabrís foram abandonadas e, como resultado prático, o ano de 1987 apresentou séria crise nas bolsas de valores. Posteriormente, a crise das cotações da Nasdaq demonstrou o que qualquer manual capitalista carrega nas primeiras páginas : a atividade financeira é dependente e reflexo da atividade produtiva. O conhecimento e o domínio da informação não garantem, isoladamente, como querem certos teóricos, a sustentação de nenhuma economia. A humanidade não está, como insistem os mesmos teóricos, em suposta fase pós-industrial. Indústria desenvolvida e provida de avançada tecnologia ainda é indústria. Afinal, a humanidade consome produtos industrializados e não se alimenta de bytes e softwares.
Mas a chamada era Reagan, grotescamente seguida pela "dinastia texana", insistiu na tentativa de distanciar a economia do império decadente das frugalidades produtivas, seja pela terceirização da produção, seja pela pura e simples importação de produtos industriais. O resultado dessa política, claro, levou à queda do poder de consumo de milhões de famílias que, antes, dependiam das atividades industriais que foram deslocadas. O mercado financeiro, apesar do expressivo crescimento de suas atividades, não consegue e não precisa incorporar grandes massas de operadores.
Esse quadro complexo (baixo poder de compra X mercado financeiro em expansão) levou a que os "gênios" da especulação criassem mecanismos capazes de gerar crescimento econômico mediante o artifício da especulação imobiliária, cujos frutos, mediante as renegociações de hipotecas, permitiram que vastos setores da chamada classe-média elevassem seus padrões de consumo, o que permitiu a continuidade do crescimento da economia, porém com medidas artificiais.
Para usar um chavão, a crise das hipotecas é apenas a ponta do iceberg. A origem verdadeira da atual crise (outras serão sobrepostas) está, na realidade, na perda de capacidade de consumo dos cidadãos dos daquele país e na virtual estagnação de sua economia. O gigantismo da economia norteamericana e a desproporção comparativa com outros países levou à desastrada mudança de produção acima mencionada e, para mitigar seus péssimos resultados, formulou a artificial valorização dos imóveis. Agora é hora de pagar a conta, que é altíssima e não se resume aos US$ 700 bilhões despendidos no socorro aos bancos.
QUADRO ATUAL. O mercado financeiro está depauperado e em crise de confiança, além de parcialmente atrelado ao Estado. A perspectiva é de endurecimento regulatório. A inflação é ascendente. O dólar tende a ser desvalorizado. A produção industrial restante tende a diminuir em quantidade. A curto e médio prazos, haverá maior internalização da descomunal quantidade de moeda espalhada em reservas monetárias de diversos países mundo afora, com resultados previsíveis no meio circulante. O Federal Reserve (banco central) tem pouca margem de manobra para estimular a economia, pois a taxa básica de juros está em torno de 2% e não pode baixar mais que residualmente. O endividamento dos cidadãos alcança, na média, índices recordes e indica diminuição na capacidade de obtenção de créditos.
A queda da economia dos USA leva às quedas paralelas das economias do México, atrelado ao Nafta, e da China, dependente do comércio exterior com o império decadente. Para compensar a queda de suas exportações, o governo chinês terá de despejar suas reservas em dólares, porém com cautela e velocidade estritamente controladas, para evitar maiores perdas com a desvalorização. As convulsões sociais mexicanas, atualmente restritas a certas províncias, podem se tornar generalizadas devido ao provável desemprego decorrente da diminuição produtiva.
DIAGNÓSTICO FINAL. A atual crise financeira demonstra o esgotamento do modelo capitalista aplicado na sede do império. A moeda dos USA perde sua expressão principal, que é a de servir como padrão das relações comerciais internacionais, conforme estabelecido no Acordo de Bretton Woods. Novos acordos internacionais deverão ser realizados para estabelecer alguma moeda virtual ou real, calcada na média de cotações de várias outras (inclusive o Real brasileiro), para servir de base nas transações comerciais.
UMA COMPARAÇÃO. Alguns analistas comparam a dimensão da atual crise com a de 1929. Ambas são financeiras, mas é importante lembrar que suas origens são completamente diferentes. A de 1929 se originou do excesso de estoques de produção que se revelaram infinanciáveis devido à incapacidade de consumo, com a consequente desvalorização dos papéis acionários. A atual decorre da capacidade artificial de consumo gerada por meios especulativos e da incapacidade de rolagem do estoque acumulado das dívidas.
O império está mais próximo do fim.
Escrito por nada será como antes às 11h14
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HISTERIA CONTRA O CIGARRO
Vários séculos de discussões filosóficas e incontáveis experiências foram necessários para que a humanidade alcançasse as atuais condições de existência. Não é exagero afirmar que quase todas as atividades contemporâneas são norteadas pelo conhecimento científico historicamente acumulado. Ferramentas, aparelhos, máquinas, meios de locomoção, objetos pessoais, ações profissionais, roupas, diversões, práticas de higiene, remédios e as respectivas relações destes ítens com todas as demais esferas vivenciais são moldadas ou, ao menos, inspiradas na Ciência.
Ciência não é área propícia à atuação de palpiteiros e especuladores. Demanda a utilização de metodologia adequada e estritas fidelidades descritiva e conclusiva. Conclusões cientificamente respaldadas exigem a reprodutibilidade, ou seja, determinada ocorrência ou reação deve ser impecavelmente reproduzida em condições análogas. Fora desse critério essencial, não há Ciência e sobra especulação.
Galileu, Bacon e Descartes, construtores iniciais da metodologia científica, demonstraram que a experimentação, a comprovação das coincidências constantes e a racionalidade formam o trio básico da análise responsável. Os acessórios ficam por conta das disponibilidades existentes, conforme avança o conhecimento. Há alguns séculos atrás, enxergar um inseto dependia da luz solar favorável e da superposição de lentes grosseiras ; hoje, microscópios eletrônicos e de varredura possibilitam, em laboratórios medianos, a detecção de minúcias que no passado sequer eram imaginadas. De nada adianta, por outro lado, que um pesquisador, com aparelhos sofisticados, detecte partículas e elementos se não dispuser de conhecimento metodológico capaz de propiciar o cruzamento dos dados para, finalmente, formular conclusões dedutivas.
O candidato a cientista precisa, portanto, conhecer a diferença entre Método e ferramentas de pesquisa. O Método deve pairar e penetrar de modo incessante o desenrolar do processo de conhecimento. As ferramentas devem ser utilizadas na medida das necessidades e restritas a etapas definidas do mesmo processo. Sem essa noção, apenas aparentemente simples, existe o risco de as partes serem tomadas pelo todo e a aparência ocupar o lugar da essência.
A introdução acima é necessária para a compreensão do objetivo deste pequeno e resumido ensaio, que discute o caráter não-científico das "pesquisas" que afirmam a suposta nocividade do tabaco e do hábito de fumar. Tais "pesquisas" costumam ser realizadas através de dados estatísticos e, invariavelmente, concluem que o hábito de fumar conduziria usuários e "fumantes passivos" a doenças respiratórias, acidentes vasculares cerebrais e cânceres pulmonares, dentre outras ameaças.
Dados estatísticos são ferramentas utilizáveis em etapas específicas de determinadas pesquisas. São dados parciais e servem como argumentos provisórios (mutáveis, portanto) referentes a categorias do processo científico. Extrair "conclusões" a partir desse dados equivale a tomar a forma pelo conteúdo e cometer verdadeiro atentado à Ciência.
Inúmeras "pesquisas" estatísticas apresentam o uso do tabaco relacionado às mencionadas doenças. Afirmam que seus usuários têm danos à saude derivados da inalação da fumaça de cigarro e congêneres. Advertem, também, que os cigarros, além da nicotina, conteriam milhares de substâncias químicas, muitas delas tóxicas e de efeito devastador ao organismo humano. À primeira vista, esses argumentos são fortes e convincentes, principalmente aos leigos, que desconhecem o processo de formulação do conhecimento científico.
Mas as "conclusões" dessas pesquisas são parciais, arbitrárias, comprometidas e obscurantistas !!!
Fumantes são, como é óbvio, pessoas que habitam áreas urbanas, rurais e litorâneas. Além de fumar, têm práticas e hábitos semelhantes aos dos demais membros da sociedade. Fumantes habitam imóveis, utilizam transportes individuais e/ou coletivos, ingerem alimentos variados, respiram o ar disponível na atmosfera, ingerem remédios quando necessário, dentre inúmeras outras atividades comuns aos seres humanos. Por que, então, o hábito de fumar deve ser isoladamente tomado como fator desencadeante de mazelas da saúde pública ?
Vários fatores do cotidiano podem ser isolados e apontados como desencadeadores de moléstias, talvez com maior propriedade. É sabido que câncer , enfisema pulmonar e assemelhados ocorrem com maior ênfase em áreas urbanas. Áreas urbanas, como também é sabido, concentram maior grau de poluição ambiental (que inclui atmosfera, água, ruidos, etc.). Por que não são feitas pesquisas acerca das relações entre consumo de água quimicamente tratada (e reutilizada), fiação elétrica exposta (radiação), concentração de ondas eletromagnéticas, atmosfera contaminada por gazes industriais e todas as demais circunstâncias típicas dos centros urbanos ?
Outra questão. Os registros apontam, claramente, o aumento vertiginoso de ocorrência de câncer pulmonar a partir da década de 1930, no âmbito ocidental. Curiosa e sugestivamente, esse período coincide com o advento da comercialização em massa de alimentos industrializados. Conservantes, acidulantes, espessantes, aromatizantes, flavorizantes, anti-oxidantes e muitos outros insumos químicos são fartamente utilizados em alimentos, inclusive os dirigidos às crianças. No entanto, raríssimos são os trabalhos dirigidos à apuração das reais implicações desses insumos ao organismo. Mas a coincidência é notável !
Ao que parece, o sistema econômico preponderante no mundo, certamente para acalmar ânimos com manobra diversionista, resolveu "leiloar" um dos setores industriais (o de tabaco) para proteger os demais de acusações mais elaboradas. Escolhido o "inimigo" (o tabaco), todas as forças, a mídia, os Estados, o discurso predominante, a propaganda, a "ciência das estatísticas" são direcionados para abatê-lo. Enquanto isso, as raízes ocultas são mantidas a salvo e continuam a envenenar (em todos os sentidos) os ingênuos consumidores.
Uma derradeira questão. Passados mais de 20 anos desde o início da histeria anti-tabagista, não existem indícios da diminuição das ocorrências das doenças mencionadas. Mas as fontes oficiais de saúde, mundo afora, alardeiam a diminuição, em média, de 15% do número de fumantes. É, no mínimo, tragicômico !
Escrito por nada será como antes às 11h22
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MENTIRAS
A indústria do cinema procura atrair espectadores com criatividade de cenários, cores, figurinos e atores conhecidos. Mas a voracidade de chamar atenção costuma gerar deturpações da realidade.
Há alguns anos atrás, uma produção ambientada na Roma antiga (O Gladiador) conseguiu concentrar, em aproximadamente 2 horas de projeção, várias incoerências e mentiras que contribuem para gerar confusões históricas nos espectadores. É claro que uma obra de ficção pode conter vontades e expressões próprias, segundo as intenções estéticas de seus criadores. Mas, se a ficção é ambientada na antiga Roma, deve respeitar, a título de verossimilhança, as condições reais vigentes naquela localidade, na respectiva época.
Uma das cenas de O Gladiador apresenta o protagonista diante de uma infinidade de elmos, capacetes, escudos e armas de vários formatos e tamanhos, expostos numa enorme bancada, para serem escolhidos. Quem tem mediana noção acerca das condições produtivas da época sabe perfeitamente que tal diversidade consumista era impensável naquela altura, especialmente para escravos prestes a serem apresentados na arena do Coliseu. A riqueza romana jamais foi sinônimo do consumismo de classe-média vigente na atualidade. A população da sede do Império, em algumas ocasiões, encontrou dificuldades de abastecimento de alimentos e de outros suprimentos. Armas e proteções corporais foram, por muito tempo, artigos de luxo.
No mesmo filme, algumas das principais cenas têm o Coliseu romano como "protagonista". Nada mais mentiroso do que as dimensões do cenário utilizado. Quem conhece as ruinas daquele edifício, que mantém o perímetro intacto, sabe perfeitamente que seu interior comportaria, no máximo, entre 5000 e 10.000 espectadores apinhados nas íngremes arquibancadas. Sua magnífica e imponente arquitetura não esconde o fato de que a dimensão de sua arena é modesta se comparada aos ginásios esportivos da atualidade. No entanto, o "Coliseu" daquela película foi multiplicado, transformado em enorme construção que humilharia a verdadeira.
Na época do lançamento do filme, algumas revistas e publicações especializadas chegaram a afirmar que o Coliseu, quando em funcionamento, comportaria público de 50.000 pessoas. Além de mentirosa, essa afirmação pode levar a outros graves equívocos a respeito da história de Roma. Aquela cidade, que foi sede do Império e origem das conquistas territoriais, sempre foi governada como cidade-Estado. Suas conquistas territoriais sempre foram anexadas como províncias, não raro governadas de forma autônoma, ainda que tributárias dos recolhimentos e decisões políticas da sede romana.
Na Roma antiga, a sofisticação arquitetônica estava restrita à área das atuais ruinas do Foro Romano, que concentrava as edificações públicas, os templos sagrados e o próprio Coliseu, numa das extremidades. As demais partes da cidade, nem todas ligadas por continuidade urbana, eram dotadas de construções precárias, com caótico e apertado traçado viário. Afinal, a antiga Roma era apenas uma aldeia crescida desordenadamente.
Alguns especuladores costumam passar a idéia de que aquela cidade chegou a possuir, em sua fase áurea, mais de 1 milhão de habitantes, em meados do século II desta era. Telas e papéis aceitam qualquer escrita mas, em contrapartida, atestam a ignorância de seus autores. Cidades com essa magnitude demográfica exigem enorme capacidade de suprimento e equivalente poder de gerar ocupação de trabalho para seus moradores. As fontes d'água e os aquedutos romanos seriam insuficientes sequer para saciar a sede de tamanho contingente. A produção de alimentos na época, ainda primitiva, não teria condições de sustentar uma metrópole, mesmo a "papa" de trigo que consistia a refeição típica dos romanos. E, principalmente, é sabido que as ocupações daquela cidade não eram industriais, mas meramente manufatureiras e artesanais, incapazes de gerar trabalho para enorme massa populacional. Não é temerário afirmar que a antiga Roma teve, no máximo, entre 50.000 e 100.000 habitantes.
Hollywood e similares não constituem fontes confiáveis de dados históricos e apenas promovem o consumo de futilidades.
Escrito por nada será como antes às 11h36
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INTERCÂMBIOS
Computadores são máquinas convenientes, em certos casos. Mas são irascíveis contra amadores, vítimas indefesas de ardilosas trapaças planejadas no Vale do Silício.
Computadores são seres dotados de comunicação com milhões de outras criaturas semelhantes e é possível que, em conjunto, algum dia comecem o ataque final contra pessoas de boa índole e outras nem tanto.
Mas o assunto deste post é mais prosaico e diz respeito à troca das caixas de som de meu PC, que é novo, mas cujas caixas originais têm sonoridade e qualidade lastimáveis. As caixas novas, de design redondo e atraente ficaram, por preguiça e algumas tarefas agendadas, sobre a geladeira do escritório. Por uma semana compuseram, com a amiga, humorada e interessante parceria . Pareciam orelhas do Mickey.
A partir do segundo ou terceiro dia da experiência de convívio, o refrigerador passou a apresentar vivacidade e sinais jamais vistos. Parecia sorrir quando sua porta era aberta, as pedras de gelo se soltavam das formas com mais facilidade e até o ruido do compressor diminuiu. Cheguei a acessar o site de um fabricante, disposto a enviar sugestão para o desenvolvimento de um modelo dotado de orelhinhas, capazes de redimir décadas de injustiças contra as geladeiras, surdas e sem voz mas sempre dispostas, pela simples abertura das portas, a oferecer água gelada e proteger alimentos dos infortúnios climáticos.
Um dos maiores escritores que o mundo conheceu prestou atenção nas bicicletas e reclamou que elas, apesar de dóceis e de comportamento discreto, sofrem injusto preconceito, proibidas de entrar em certos locais. É hora de arregimentar apoio às geladeiras, que prestam relevantes serviços e não têm como reivindicar seus direitos e nem escutar as sórdidas articulações familiares, que tramam suas abruptas substituições com argumentos frívolos, como a necessidade de combinar a mesa e os armários da cozinha com um modelo mais novo. Nessas horas, aquela que foi a salvadora de pudins e sorvetes é relegada ao esquecimento num canto sombrio da garagem da casa e, quando muito, tem suas prateleiras transformadas em depósito de ferramentas e trastes inúteis, desligada e abandonada. Isso é injusto e não pode continuar !!!
Tudo o que é publicado neste blog envolve responsabilidade política e respeito à meia dezena de leitores habituais. Por essa razão, realizei uma pequena enquete com amigos para testar a proposta de emancipação das geladeiras. O argumento principal aponta que aparelhos de rádio, televisores, computadores, cd players e até os aposentados toca-discos dispõem de "orelhas" sonoras, enquanto as geladeiras permanecem como deficientes áudio-fônicas. As críticas mais consistentes partiram de uma economista que, com argúcia e espírito democrático, apontou a necessidade de estender a cidadania aos liquidificadores, batedeiras, processadores e aspiradores. Repliquei com firmeza, dizendo que esses seres são de natureza violenta e realizam suas funções de modo estridente, sem se importar com os passantes e demais objetos. A economista se limitou a sorrir e admitir a veracidade dos argumentos.
Escrito por nada será como antes às 16h54
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OCUPAÇÕES
Utilizo, para guardar um simplório meio de transporte, os serviços de uma garagem localizada na região central de São Paulo. É um grande galpão de três andares, ao qual se chega após percorrer algumas dezenas de metros de um corredor de entrada, ao ar livre, em via de grande movimento. O sistema de funcionamento consiste em estacionar o veículo na entrada do galpão, com a chave no contato e passar ao manobrista que, em troca, entrega um comprovante e dirige o automóvel para a vaga conveniente. Com o tempo e a conquista da confiança, o comprovante é dispensado por muitos dos costumeiros usuários, incluido o que escreve o presente.
Mas o interessante não é o sistema de funcionamento ou a dimensão do prédio. No período noturno o estabelecimento é servido por dois manobristas e um deles tem atitudes incompreensíveis. Invariavelmente, ao chegar ao galpão, o usuário se depara com a pergunta - O senhor veio buscar seu carro ? A vontade maior é a de responder que se trata de um passeio turístico ou que estamos ali para comprar jornal ou salgadinhos, porque não se conhece pessoa que adentre garagens com intenção diferente de deixar ou buscar algum veículo, principalmente quando se trata de mensalista conhecido. É bem simples : ao entrar motorizado, o usuário pretende guardar o veículo ; ao chegar a pé, a operação é inversa.
Mas aquele manobrista é mais pitoresco. Ao receber a confirmação de que o usuário realmente pretende seu veículo, invariavelmente ele dá duas voltas por entre os veículos estacionados no pavimento térreo e, depois, efetivamente se dirige aos andares superiores, que é onde estão os carros dos mensalistas. Ao trazer o automóvel, após injustificada demora, o manobrista costuma iniciar conversa sobre assuntos variados, como seu vizinho desempregado, o cachorro da filha ou que a marmita de ontem estava azeda. O interessante é que a conversa se estende sem que o manobrista saia do carro, o que implica em dedicação diplomática para retirá-lo e retomar a posse.
Na semana passada a situação atingiu o paroxismo. Este autor foi chamado com urgência à garagem, às 5:00 da madrugada. O motivo do apelo foi, segundo o mesmo manobrista, que o veículo havia sido deixado sem as chaves. De nada adiantou argumentar que, como estava estacionado no andar superior, a praxe havia sido obedecida. A solução, depois de muitas negativas e insistências, veio com o exame dos demais veículos chegados em horário parecido, na noite anterior e....surpresa !!! A chave em questão estava sobre o banco de outro carro, estacionado em outro pavimento.
Quais insondáveis preocupações afligem o manobrista ? Estaria acometido de alguma síndrome laboral derivada da monótona repetição de atividades ?
Escrito por nada será como antes às 10h57
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ECOLOGIA, DESMATAMENTO E PROJEÇÕES
A sobrevivência do homem decorre da luta CONTRA a natureza. A simples coleta de frutos, a caça e pesca artesanais e a extração de raízes comestíveis são agressões à natureza, ainda que em pequena escala e para mero consumo individual.
Quando a humanidade passou a produzir e estocar excedentes, há alguns milhares de anos, foi dada a largada para drásticas mudanças nas terras do planeta. A geração de excedentes de produção não é criação capitalista ; o sistema capitalista apenas criou mecanismos de gestão e consumo, para transformar os estoques de alimentos e matérias-primas em mercadorias lucrativas, através da exploração da mão-de-obra.
Nos últimos três séculos, a agricultura do arado manual tornou-se industrial, com adubos e defensivos químicos aplicados por maquinário sofisticado, plantio e colheita mecanizados , além da especial logística de transporte e comercialização dos resultados. Terras impróprias foram (e são) tratadas para receber culturas antes inviáveis. A engenhosidade humana, através de canais de irrigação, recupera áreas desérticas, ganha espaços do mar com aterros, muda cursos hidrográficos e, assim, consegue ampliar as perspectivas de sobrevivência e ampliação da espécie.
Historicamente, os países que conseguiram superar o atraso econômico foram, justamente, os que avançaram, antes, na agricultura. A Europa, pátria da Revolução Industrial, moldou minuciosamente seu espaço produtivo. Florestas antigas foram transformadas em território de grãos e leguminosas, rios foram as estradas iniciais de escoamento, o espaço produtivo foi delimitado em propriedades rigidamente controladas.
China e Índia, territórios de grandes contingentes populacionais, há milhares de anos têm na agricultura intensiva a base de sustentação da população e da economia. O arroz indiano e chinês sai das mesmas planícies úmidas há séculos, com instinto apenas elementar de preservação. As técnicas modernas apenas aumentam a produtividade.
Brasil e os demais países da África e América Latina não gozam de isenção divina ou natural. Desenvolver a agricultura, gerar energia e obter recursos minerais são operações que obrigam a modificação ambiental. É claro que as intervenções em ambientes delicados podem e devem obedecer a critérios de preservação, cientificamente apoiados e responsáveis. Afinal, a ampliação das fronteiras produtivas não é provisória ou sazonal, mas permanente. Portanto, é de máxima conveniência a aplicação de técnicas e manejo sustentável, seja quanto ao aspecto econômico como de respeito ao equilíbrio natural.
O homem é um ser da natureza. Sua reprodução e permanência é talvez mais importante do que a do jacarandá. O mico-leão dourado deve ser preservado, mas não à custa da fome de uma só criança. Conciliar a preservação do máximo de espécies vegetais e animais é dever da humanidade, que é racional, mas não existe traço de racionalidade na luta quase religiosa de manutenção de florestas ao custo da miséria de populações desprovidas de trabalho e sustento.
As projeções de dados, que prognosticam a destruição completa da floresta amazônica para as próximas décadas são mentirosas. Em primeiro lugar, é preciso discernir o significado de região amazônica (com florestas densas e rios caudalosos) e de "Amazônia legal". Esta última é ficção jurídica, criada com a finalidade de obtenção de subsídios e incentivos, mas não constitui continuidade florestal, pois grande parte dessa área é formada por savanas e cerrados. Por coincidência, boa parte das queimadas e ampliação da chamada fronteira agrícola abrange, exatamente, áreas não-florestais.
As projeções matemáticas desconsideram questões elementares da economia. Uma delas é logística : simplesmente não existe escoamento viável de madeira e eventual produção agrícola em áreas remotas; as grandes distâncias e os bloqueios naturais impedem, por mera econometria, a viabilidade econômica de transporte. A outra é de mercado : se , porventura, toda a região amazônica fosse efetivamente desmatada e ttransformada em cultivo agrícola, sua produção excederia, geometricamente, as capacidades globais de consumo e de armazenamento.
O alarmismo das projeções e a campanha internacional contra as pretensões produtivas brasileiras, além de cínicos e hipócritas, têm endereço certeiro : obstruir a capacidade do país como mega-produtor de alimentos e, consequentemente, sua importância geopolítica.
Extrativismo florestal pode ser praticado em escala artesanal e gerar sustento marginal, que não é desprezível para certos núcleos populacionais. Mas também é verdade que alguns outros produtos, como o látex natural, são incapazes de competir com os sintéticos. Defender a intocabilidade amazônica contraria o espírito humano, freia a expansão econômica e condena milhões à miséria e ignorância. Do outro extremo, permitir a destruição descontrolada, beneficia pequenos grupos exploradores e perpetua a dominação de trabalhadores e populações tradicionais. É preciso delimitar, com estrita racionalidade, a área necessária à organização do espaço produtivo, com equilíbrio distributivo e responsabilidade ambiental.
A Mesopotâmia, origem do cultivo organizado, foi ocupada com muitas disputas, suor e sangue. A Amazônia sofre de problemas semelhantes, mas dispensa a histeria e o alarmismo.
Escrito por nada será como antes às 09h13
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ESPAÇOS PÚBLICOS II
A prefeitura de São Paulo patrocinou, nos dias 26 e 27 de abril (sábado e domingo), o evento denominado "Virada Cultural". Consiste em palcos armados em alguns locais do centro da cidade, cada qual apresentando uma modalidade musical. Um de rock, outro de samba, espaço para piano, rap, dance-music, etc.
À primeira vista, a promoção é simpática, pois abrange gostos diversos e atrai pessoas que não costumam circular na decadente área central, o que pode produzir alguma revitalização. Mas não é assim que as coisas são.
Primeiro, para justificar os alegados mais de R$ 6.000.000,00 (seis milhões de reais) gastos no evento, tem início a tradicional guerra de números de participantes. Alega-se que 1.000.000 (um milhão) de pessoas (*) assistiram aos diversos shows apresentados em cada palco. Essa mentira grosseira, verificável visualmente por qualquer pessoa dotada de sensatez que tenha circulado e presenciado as apresentações, demonstra a ansiedade da administração em apresentar resultados retumbantes. Com um detalhe, apenas, é possível desmentir esses números : as três estações do metrô envolvidas na área dos palcos (Pedro II, Anhangabaú e República), simplesmente não têm capacidade diária para suportar tamanho contingente. Se um milhão de pessoas foram aos locais, é de se esperar que voltaram a suas casas. Ora, 2 milhões de passageiros equivalem a 65% do movimento diário do metrô, que congestiona absolutamente todas as aproximadamente 60 estações do sistema. Imagine-se 2/3 desse total em apenas 3 (três) estações e se obtém a dimensão da mentira.
Alguns podem lembrar a revitalização prometida para a área central e observar que eventos dessa natureza podem trazer resultados favoráveis. Outra inverdade ! Aproximadamente 100.000 pessoas moram no centro de São Paulo e uma vez ao ano são "brindadas" com esse evento duvidoso, que literalmente inferniza a área durante 24 horas seguidas, com sonoridades agressivas e de gostos duvidosos espalhados por potentes e enormes instalações. Para piorar, a montagem dos palcos, realizada nas madrugadas antecedentes, é composta de incessante bater de metais e armações de aço e respectivas gritarias de operários e roncos de enormes caminhões. Imediatamente após o encerramento da barbárie, a desmontagem é feita às pressas, ocupando toda a madrugada seguinte, de modo que a segunda-feira (hoje) testemunha apenas a imundície deixada nas ruas costumeiramente abandonadas.
Questões pertinentes :
1. Qual o valor cultural de uma apresentação da cantora outrora conhecida como Maria Alcina, realizada às 3:00 h (madrugada), em pleno Largo do Arouche, que se caracteriza por prédios em sua maioria residenciais ?
2. Qual critério estabelece que a Praça da República deve ser agraciada com sonoridade estridente e a Praça Dom José Gaspar dispor de apresentações exclusivamente pianísticas e suaves ?
3. Qual critério e quem se encarregou de contratar (e pagar) grupos e "artistas" desconhecidos, utilizando dinheiro público, numa cidade cheia de carências ?
4. O que um evento de 24 horas seguidas traz de proveitoso à área central, além de sujeira, poluição sonora e gastos desnecessários ?
5. Por que a verba gasta não é distribuida em eventos equilibrados, ao longo do ano e nas demais regiões da cidade ?
A cidade inteira é imunda, especialmente na região central. Se a verba da "virada cultural" fosse aplicada (mesmo !) na limpeza de ruas, haveria melhor proveito, porque higiene urbana também é cultural !!!!!!
Quem, além dos "artistas" e da classe média deslumbrada que acorreu aos shows se beneficiou desse assalto aos cofres municipais ?
(*) ATUALIZAÇÃO : Matéria publicada no Caderno 2 do jornal "O Estado de São Paulo" menciona declaração do Secretário de Estado da Cultura que atribui aos seguranças e trabalhadores que atuaram no evento a informação de que 4 (quatro) MILHÕES de pessoas passaram pelas apresentações tratadas neste post.
Escrito por nada será como antes às 11h20
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TEATRO NA ATUALIDADE
A cultura ocidental deve boa parte de seu caráter ao teatro. Na Grécia antiga, as apresentações dramáticas eram essenciais e, mais tarde, na Itália, a Commedia del'Arte gerou signos teatrais que perduram até hoje.
O cinema deve grande parte de sua estrutura ao teatro. Signos, cenografia, iluminação, interpretação e vestuário respeitam códigos elaborados e experimentados durante séculos, milênios, nos palcos.
Interpretar papéis, fantasiar situações, criar ficções e, com isso, alargar a própria cultura e sondar possibilidades é da natureza da racionalidade humana. A arte caminha com o homem, seu criador. E o homem aprende com a arte, sua criatura.
Do teatro de vanguarda aos rituais primitivos, a encenação está presente em todas as culturas. A cerimônia do Kuarup tem a mesma genética das obras de Shakespeare, cada uma apresentando seu respectivo teor de dramaticidade e adequação a culturas tão distintas.
Mas o teatro, aquele espetáculo realizado em recintos fechados ou abertos, com delimitação entre platéia e palco, cobrança de ingressos, maquiagem e vestuário produzidos e dirigidos, padece de doença sem perspectiva de melhora. Está morto ou, pelo menos, em estado agonizante.
O Brasil tem minúscula tradição teatral. Em meados do século XX foram feitas as primeiras experiências realmente profissionais. A partir daquela época o país experimentou, em diminuta escala e em poucas décadas, a trajetoria percorrida em séculos, no solo europeu. Sófocles, Somerset Maugham, Shakespeare, Brecht foram escalados para destruir o teatro de revista que era, então, a opção rotineira nos palcos. Mas esse teatro começou mal, por aqui. Seus introdutores criaram salas pequenas, para acomodar apenas as elites do país ainda analfabeto. O preço dos ingressos, cada vez mais caros, serviram, desde o início, como credencial provinciana. Freqüentar o teatro ainda é, para muitos, visto de entrada e permanência no seio das elites econômicas e intelectuais, mesmo que a platéia não entenda absolutamente nada a respeito do tema da peça ou das intenções de seu diretor. Assistir uma peça e depois jantar em restaurante de couvert ameaçador e pratos ofensivamente rasteiros é programa habitual de uns poucos conhecedores, realmente interessados, acompanhados de arrivistas ignorantes, cujo único mérito cultural é a carteira recheada de cartões de crédito.
Há mais, ainda. A soma total das poltronas disponíveis em todos as salas de teatro da maior cidade brasileira atinge poucos milhares de lugares. Esse dado, isoladamente, demonstra que as chamadas damas do teatro e respectivos cavalheiros, aclamados e obedientemente aceitos pela população são, na realidade, criações da mídia, pois a imensa maioria das pessoas jamais viu ou verá qualquer apresentação teatral. Sem as medíocres novelas da TV, atores "consagrados" do teatro poderiam caminhar pelas ruas sem reconhecimento. Sem os enormes anúncios subsidiados em jornais, quase ninguém saberia do teor das peças em cartaz. Sem os palpites geralmente equivocados dos "críticos", poucos poderiam, pelos títulos das peças, diferenciar uma tragédia grega de mais um exemplar do besteirol ou das oportunistas montagens que exploram a fama dos atores da televisão.
A cada nova temporada, os gabinetes de Brasília são invadidos pelo séquito do teatro. Seus integrantes, legítimas testemunhas do velório teatral, desfilam seus trajes planejados, na tentativa rotineira de atrair holofotes para sua proclamada "luta" pela manutenção da cultura. O interesse real é, claro, a busca de patrocínios e incentivos fiscais para a manutenção de seus luxos, à custa da rarefação de verbas para objetivos maiores. Os "heróis" do teatro nacional querem dinheiro e benção públicos para o custeio de suas investidas em produções de ingressos exorbitantes para platéias a cada vez menores. Por ironia, alguns desses sugadores de verbas públicas cometem, nos períodos eleitorais, o disparate de exigir transparência e lisura no ambiente político, certamente para assegurar posição vantajosa para suas exigências posteriores.
Na era atual, em que as massas podem e têm o direito de acesso à cultura, o teatro é inservível e inoperante, senão para pequenas platéias. O teatro é de natureza intimista e não pode atingir multidões. É caro, gera ínfimo impacto produtivo na economia e beneficia poucos espectadores e produtores.
Super-produções têm surgido nos últimos anos, em São Paulo e Rio de Janeiro. Cópias minuciosas de musicais da Broadway, esses espetáculos nada acrescentam em termos culturais e servem apenas ao lucro de seus produtores, às remessas de royalties e para gerar assunto nas rodas de emergentes, que adoram ser vistos nesses eventos.
O teatro está morto e deve ceder lugar ao cinema, que tem mais e maiores recursos cênicos, com mais qualidade e reprodutibilidade. A ribalta só serve para experiências e aprendizado de interpretação.
Escrito por nada será como antes às 10h45
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ESPAÇOS PÚBLICOS
As grandes cidades brasileiras, com poucas exceções, têm carência de espaços públicos destinados ao lazer e convívio. Em São Paulo, essa característica é bastante conhecida e há muito discutida. Alguns bairros da capital paulista não possuem uma praça sequer. Noutros, nas áreas mais nobres e na região central. os poucos parques e praças foram, nos últimos 30 anos, cercados por grades que vedam o desfrute a partir do anoitecer.
Para minorar o problema, nas últimas décadas a cidade de São Paulo ganhou alguns parques (do Carmo, Anhangüera, etc.) que, apesar de atenderem carências locais das periferias onde se encontram, servem como exemplo a ser seguido pela administração pública. A cidade e sua população precisam de espaços similares, onde a vegetação e a tranquilidade podem oferecer alívio ao caos urbano.
Essa visão favorável à ampliação de espaços públicos, no entanto, não é consensual. Além dos referidos gradeamentos, realizados a título de segurança, outras medidas nocivas foram paulatinamente implementadas na cidade, também nas últimas décadas, que constituem verdadeira agressão aos moradores de certos bairros, pois vedam, mediante artifícios e supostas promoções de eventos, o desfrute de praças e parques municipais.
O Parque do Ibirapuera, que já teve a própria sede da Prefeitura Municipal em seu interior, é exemplo do que não deve ser feito nesse tipo de logradouro. Aquele parque é literalmente tomado de assalto por exposições, estacionamentos, promoções, eventos, prédios, teatro e várias atividades que, para vantagem de todos, melhor seriam se instalados em outros locais. Afinal, ações de natureza cultural não precisam das preciosas áreas verdes e o parque, por sua vez, é suficiente sem elas. Alguns cidadãos argumentam que aquele parque (1,5 km²) é grande o suficiente para suportar vários equipamentos. Na realidade, mais de um terço de sua área é ocupada funções estranhas à sua natureza. Os freqüentadores, que formam multidões nos finais de semana, são obrigados, ainda, a driblar bicicletas e triciclos que invadem, às vezes em alta velocidade, as vias de circulação, para lucro e glória dos locadores de tais veículos.
O problema da ocupação indevida desses espaços é "democrático" e apresenta exemplos em várias outras regiões. A partir da década de 1980, mais ou menos, teve início uma perversa modalidade de expulsão de usuários de praças. Na Praça da República, único espaço agradável do centro da cidade, dotado de vegetação frondosa e relativamente amplo, foi instalada há mais de 30 anos a conhecida "feira hippie", mais tarde ampliada com a denominada "praça doce". A primeira, destinada a vender objetos artesanais, hoje é entreposto de mercadorias de gosto duvidoso e, com poucas exceções, produzidas em fábricas informais. A segunda, que consiste em aproximadamente uma centena de barracas grotescas, atrai multidões de moscas e insetos que competem, com os incautos compradores, pelas calorias excessivas dos grosseiros quitutes ali comercializados. O resultado final, repetidos aos sábados e domingos, é o aspecto deprimente, a sujeira e o afastamento dos reais interessados em desfrutar da finalidade original da praça.
Há outros exemplos de desrespeito ao cidadão. O bairro de Pinheiros, na zona Oeste, tem apenas uma praça, com aproximadamente 10.000 m², espremida entre duas ruas que concentram a maior parte do tráfego de automóveis da área. Essa praça possui algumas dezenas de árvores, poucos canteiros com gramado e folhagens e, na parte central, um play-ground destinado às crianças. Um dos dias úteis da semana é "propriedade de feirantes, que instalam barracas de comestíveis juntamente com a gritaria e tráfego de graciosos caminhões que normalmente circulam nesse tipo de evento. Mas é aos sábados que ocorre a articulação da barbárie. A bucólica praça é atacada, ainda durante a madrugada, por hordas de mercadores de trastes, que montam enorme quantidade de barracas, de modo a ocupar a totalidade da praça. Vendem uma infinidade de objetos de objetos supérfluos, estragados, alguns forjados como "raridades", mais roupas usadas, máquinas quebradas ou obsoletas, enfeites domésticos de mau-gosto, etc. Na esteira desse degradante evento semanal, as redondezas daquela praça são invadidas por vendedores ambulantes e suas mercadorias desnecessárias.
Do ponto de vista econômico, esse tipo de feira é predatório, pois não agrega produção (são objetos usados) e beneficia, exclusivamente, seus vendedores. Não gera empregos, não recolhe impostos, inferniza moradores das proximidades, gera congestionamentos de trânsito e força despesas públicas com varrição e recolhimento do onipresente lixo.
Mas o resultado mais perverso dessa ocupação indevida é social. Adultos e crianças são expulsos de preciosos locais de convívio e lazer, justamente nos finais de semana. Adicionalmente, o fluxo de multidões constrange o descanso e a tranquilidade necessários após a jornada semanal de atividades.
Este é um problema reproduzido em muitas cidades, grandes ou pequenas, em todo o país. É preciso resgatar os espaços PÚBLICOS, antes que sejam totalmente privatizados.
Escrito por nada será como antes às 17h17
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MULHERES
A partir dos anos 60 do século passado, países como o Brasil finalmente entraram com maior vigor no chamado movimento feminista. Diferente do que ocorria há décadas na Europa e USA, até aquela altura, inclusive nas cidades grandes, a atividade da maioria das mulheres casadas era a de dona-de-casa.
O contingente feminino nos ambientes de trabalho se restringia às funções subalternas, repetitivas e às tradicionais, como o magistério, telefonista, cabeleireira, etc. As exceções confirmavam a regra dominante e eram poucas as expressões femininas em posição de comando de empresas ou na política, áreas que, então, eram consideradas território masculino.
Nas últimas quatro décadas, quase tudo mudou nesse panorama. Nichos de homens, como a Engenharia, foram invadidos pelas mulheres ; a pesquisa científica tem na contribuição feminina características bem marcadas ; na política, a participação delas foi multiplicada e não se restringe às questões reivindicatórias, como nos primórdios ; as mulheres são a maior parte do ambiente universitário .
Na cidade de São Paulo, nos horários de maior movimento, é nítida a maioria feminina nos transportes públicos e quase equilibrada nos individuais. Milhões de mulheres saem de suas casas, diariamente, para enfrentar filas, cruzamentos de ruas movimentadas, transportes lotados, calçadas esburacadas e com excesso de transeuntes, escritórios com mobiliário atravancado e exuberância de fiação, restaurantes com mesas ameaçadoras, detritos variados, multidões, fábricas e suas máquinas. Enfim, a mulher trabalhadora enfrenta as idênticas condições que são a queixa cotidiana do homem .
Neste ponto do tema, a abordagem pode seguir vários caminhos, desde os essencialmente econômicos, até os culturais, que tratam das mudanças de comportamento nos ambientes doméstico e profissional, passando pelas questões de assédios variados, a legislação pertinente, etc. Mas este post serve à mesa os hábitos (literalmente) e costumes das vestimentas femininas.
Desde que a História consegue registrar, as roupas masculinas são mais sóbrias, práticas e funcionais do que as correspondentes femininas. A explicação óbvia para isso remete ao fato de que o esforço físico, a locomoção, o uso de ferramentas, o manuseio de objetos, a caça, tarefas outrora quase exclusivas dos homens, exige versatilidade e conforto. No século XIX, tomado o exemplo dos estratos médios urbanos, enquanto os homens vestiam casaca, sobrecasaca, calças e polainas, as mulheres desfilavam frondosas sobreposições de faixas, corpetes, armações, panos variados, anáguas, rendas, colares e adereços. Não raro era preciso ajuda íntima para o ritual da vestimenta, para carregá-la e para manter-se em pé, pois algumas impediam o uso de assentos. Os costumes daquela época são um anacronismo impensável na atualidade.
Hoje, mediadas as proporções, infelizmente o quadro é semelhante ao dos séculos precedentes. Os estratos médios urbanos regulam a vestimenta formal masculina com o costume de duas peças, com sapatos de formato padronizado, propícios à versatilidade. Com exceção do formato e largura de lapelas de paletó, largura das calças e detalhes menores, nos últimos oitenta anos, pelo menos, o traje básico masculino é o mesmo. Há quem deteste a opressão da gravata , dos vincos e até das cores repetitivas, mas essa vestimenta sobrevive e é razoável.
Mas e as roupas das mulheres ? Nos mesmos estratos sociais em que reinam o paletó e a gravata, as mulheres continuam vítimas disfarçadas do padrão oitocentista. Desde 1930, mais ou menos, os trajes femininos oscilam entre as esfuziantes saias rodadas e as justíssimas, entre o exibicionista decote e as mangas exageradas, entre os saltos-agulha e os de calibre avantajado. A cada avanço da indústria têxtil, os diligentes estilistas estão a postos para as demonstrações de praxe, alguns com evidente cinismo, transformando suas hospedeiras em estandartes sofridos de suas fantasias. Os trajes formais femininos são incompatíveis com as condições urbanas atuais.
Ninguém deve imaginar que trajes de homens e mulheres devem ser iguais. Ninguém pretende abrutalhar a mulher. Mas é deprimente encontrar trabalhadoras no metrô, por exemplo, extenuadas com as tarefas do dia e preocupadas em arrumar a fivela fora do lugar, com a saia que insiste em levantar vôo nas saídas de ar, com o salto preso nas ranhuras do piso e fragilizadas pelo desafio de equilibrar corpo, bolsa e objetos. O desafio, parece, é encontrar o padrão de vestimenta feminina adequado à "selva" urbana, de tal modo que a mulher obtenha, na comparação com o homem, equivalente funcionalidade.
O estigma da mulher do lar foi superado. O estilo de vida da belle-époque foi destruido. A mulher entrou, junto dos homens, no século presente. Para avançar mais, é preciso mudar e destruir o que atrapalha.
Escrito por nada será como antes às 14h39
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RIO DE JANEIRO: O QUE É MARAVILHOSO, AFINAL ?
A cidade do Rio de Janeiro é maravilhosa. Músicas, filmes, cartões-postais, livros e quadros famosos louvam seus encantos de modo tão incisivo, definitivo, que não sobra espaço sequer para pensar no assunto. É quase proibido discutir o tema dos encantos da cidade e de suas eventuais mazelas.
Então, os conflitos e problemas que assolam a cidade são devidos, exclusivamente, à suposta inércia de seus moradores ou à incapacidade de seus políticos e administradores ?
Essa é a questão árida e temerária que este blog passa a discutir.
O que faz uma cidade ser chamada maravilhosa ? A resposta deve utilizar o conceito de cidade. Uma cidade consiste em aglomeração de habitantes circunscrita a um extensão contínua de habitações e construções dispostas organizadamente, de maneira a respeitar determinado traçado de arruamentos e vias interligadas. Antiga ou nova, surgida em cruzamento de caminhos ou projetada, uma cidade requer, de seu traçado e características, funcionalidade, para que permita a fluência de comunicações interna e externa, o bem-estar de seus habitantes, a produtividade de suas atividades e, fundamentalmente, a possibilidade de sua própria expansão. O termo utilizado para se referir a essa requerida versatilidade é urbanismo, cuja prática saudável, na modernidade, contempla a criação de espaços de convívio social amplos e arejados, com atenção especial à delimitação de áreas restritas a pedestres e direcionamento de padrão construtivo e de ocupação do espaço.
O conceito de cidade, portanto, é voltado para a ação humana, ou seja, cidades não constituem obras da natureza, não surgem em decorrência de movimentos tectônicos e não crescem regadas pelas chuvas.
Em que consiste, então, a maravilhosa cidade do Rio de Janeiro ?
Vejamos o traçado urbanístico da cidade, especialmente na faixa a beira-mar, desde as imediações do Aeroporto Santos Dumont, junto ao centro, até a Barra da Tijuca. O arruamento é medíocre . Não fosse a construção do aterro, que avançou na baía centenas de metros, tirando do mar espaço vital, a cidade teria, hoje, terríveis dificuldades de trânsito, justamente na região de maior circulação e concentração populacional. O traçado original das avenidas costeiras, no Flamengo e Botafogo, é infantil e óbvio. As praias formam uma curva suave e o traçado das ruas limita-se a acompanhar essa linha natural. Copacabana, cuja atual faixa de areia e a larga avenida Atlântica também são fruto de aterro, seguem a mesma obviedade urbanística, acompanhando minuciosamente, do Leme ao Forte, a imposição do oceano. Quem conheceu Copacabana antes do aterro sabe que a decantada princesinha do mar era uma faixa costeira mesquinha, com edifícios debruçados quase na zona de arrebentação e espaço ridículo para circulação de pedestres e banhistas, que se amontoavam em busca de um lugar ao sol, com as buzinas de veículos em eco dentro das salas e quartos dos prédios.
Copacabana, praia e terra, é área ocupada no século XX, principalmente. Não existe, ali, a desculpa de que o traçado das ruas é herança do período antigo, que não pôde ser reurbanizado. E a forma de ocupação do bairro é deprimente. O aterro de Copa apenas ampliou o equívoco urbanístico original, com a mera ampliação da largura das calçadas e do leito carroçável. Não há praças, exceto a exígua do Lido e o paisagismo é sovina. A cor predominante dos edifícios de frente para o mar, semelhante à da areia da praia, além de monótona propicia que, nos dias quentes e ensolarados, a sensação é de uma competição com o deserto da Jordânia, à beira do Golfo de Áqaba. Por qual razão, na época da realização do aterro, não se optou pelo traçado da avenida em linha reta, por exemplo, em tangente que permitiria a criação de parques no meio e nas pontas da praia ? A resposta é que talvez (ou certamente), buscou-se contemplar, de modo equilibrado, os múltiplos interesses de proprietários dos estabelecimentos comerciais e de serviços que ali pululam, com sacrifício urbanístico.
As demais vias terra-adentro do bairro de Copacabana, também por preguiça urbanística, são semi-circulares, com exceção das que, em forma de raio, saem dos fundos do bairro em direção à orla. As principais, Nossa Senhora de Copacabana, Barata Ribeiro e Toneleros, perseguem a curva obsessiva da Atlântica de tal modo que, nas duas últimas, não raro as calçadas seguem em zigue-zague, devido às diagonais que formam o perímetro e as divisas de cada lote/prédio. O resultado é caótico, com prejuízo à circulação de pedestres e absoluta ausência de horizonte, no miolo do bairro.
O padrão construtivo de Copa, então, é o corolário dos equívocos. Os prédios têm, em média, dez andares, monotamente reproduzidos da beira da praia ao morro do Cantagalo. O efeito, visto de cima ou de baixo, é o de uma sucessão de muralhas fortificadas. O mundo se curva ao Brasil, pois a China tem apenas uma muralha e apenas Copacabana tem, pelo menos, cinco seqüências concêntricas !!! Como é óbvio nesses casos, algumas vias mais estreitas recebem insolação por apenas alguns minutos ao dia. A visualização vertical, no interior do bairro, transforma a imensidão do céu em uma estreita faixa sinuosa, à qual se chega pelo desbravamento da imensidão de fios, cartazes, janelas de todos os formatos e cores competitivas. Os quarteirões são, literalmente, caixotes compactos, porque recuos frontais e laterais das construções são mera fantasia. A esmagadora maioria dos edifícios não possui garagens internas, fruto da visão estreita de seus construtores, que não imaginaram, a partir da década de 1930, a futura motorização da sociedade, cujos indícios eram claríssimos em quase todo o mundo. O resultado da falta de espaço para veículos é a invasão das calçadas, com direito a situações tragicômicas. Explico. Há algumas décadas (quiçá ainda hoje), este blogueiro chegou a estacionar veículo junto ao meio-fio, como em qualquer cidade civilizada no mundo e, em contrapartida, recebeu, colado no párabrisa, gracioso e insólito adesivo com os seguintes dizeres : "Fui multado por desrespeitar os pedestres" !!!!!! Ou seja, a peculiar norma de trânsito daquele lugar considerava nocivo o estacionamento no leito carroçável e positivo o "mar" de veículos com as quatro rodas sobre as calçadas, estes mantidos sem qualquer admoestação. Total (e brutal) inversão da lógica urbana !
Com o presente texto, este blog dá continuidade à série sobre a cidade maravilhosa , que merecerá outros mais, na humilde tentativa de desconstruir o mito e ela própria. O conceito de cidade consiste, necessariamente, no que é criado, não no que é "dado" pela natureza. Do centro da cidade do Rio de Janeiro até o Forte de Copacabana, pelo menos, a cidade não oferece nenhuma maravilha. As maravilhas são o contorno do litoral, as linhas caprichosas e a posição dos morros, além da escolha do local onde a cidade foi fundada e desenvolvida. No lugar de cidade maravilhosa, deveria constar: cidade em localidade maravilhosa !
Escrito por nada será como antes às 11h40
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RIO DE JANEIRO: DENGUE DEMOCRÁTICA
A cidade do Rio de Janeiro ainda é a maior atração turística do país. As atividades culturais, os sítios históricos, as belas praias, o estilo de vida do carioca da zona sul e as opções noturnas constituem programação vibrante e concentrada numa faixa de terra que se estende do centro da cidade até a Barra da Tijuca, passando pela Glória, Flamengo, Botafogo, Leme, Copacabana, Ipanema, Leblon e São Conrado. Nesse caminho, de largura média de dois quilômetros, de um lado a baía da Guanabara e o mar aberto. Do outro, as formações rochosas, as matas, as trilhas saborosas, a surpreendente fotogenia da cidade vista do alto e o abrupto recortado de construções precárias, que preenchem os desvãos do relevo.
A cidade do Rio de Janeiro é um mito para brasileiros e estrangeiros. Em qualquer estado do país, adultos e jovens têm vontade de, ao menos uma vez na vida, visitar a cidade. Aquela que foi capital da administração colonial, do império e da república permanece altiva no inconsciente nacional como simbologia viva da história e da grandeza natural e humana. Ainda no século XIX, quando as atuais metrópoles brasileiras eram acanhadas e simplórias cidades provincianas, a então capital concentrava a quase totalidade da vida política, dos acontecimentos, das novidades e das artes.
A cidade ainda é, na maioria dos países a referência maior do Brasil. Na Europa e nos USA, a beleza da mulher brasileira é focalizada nas praias cariocas. As desigualdades do país são retratadas nos morros e favelas. A música é a bossa-nova, genuinamente zona sul. Os vôos carregados de turistas têm pouso garantido no Galeão/Tom Jobim. O samba e a ginga do carioca são a síntese do cartão-postal e a moldura do mito.
Mas, talvez por acreditar demais na eterna mitologia da cidade, os cariocas descuidaram da tomada de posição e do enfrentamento da realidade. O Rio de Janeiro perdeu a condição de capital do país, posteriormente deixou de ser cidade/Estado da Guanabara, os desgovernos se sucederam, a perda da condição de pólo político/econômico se realizou minuciosamente. A perplexidade reinante impede que a transformação da cidade em palco de tiroteios e enfrentamentos gere mudanças capazes de superar a desolação.
A violência na cidade, no lugar de propostas concretas e factíveis, serve de passarela para o desfile de vários exibicionistas, alguns munidos de diplomas e especialidades, outros de suposta liderança comunitária dos estratos sociais elitistas ou dos excluídos. Mutatis mutandis, o modelo das manifestações públicas é o mesmo, tanto na zona sul como na norte. Os cartazes pedindo PAZ na orla de Ipanema têm seu correspondente nas concentrações populares que apresentam a fúria e a revolta contra os inocentes e crianças atingidos por "balas perdidas", não raro provenientes de camburões com símbolos ameaçadores. Cada tiro disparado, do alto ou de baixo, por atiradores de bermudas ou fardados, aumenta a hemorragia que acomete , há muitas décadas, a cidade maravilhosa. O enfrentamento e a carnificina exaurem a musculatura da cidadania, não educam e não apresentam solução para as rachaduras sociais. A guerrilha urbana e sua irmã-gêmea, a repressão, prolongam a dolorosa rotina da manutenção de largas parcelas de excluídos dotados de vista permanente para o asfalto, a modernidade, as piscinas dos condomínios e os carros de luxo.
Têm muita razão os estrangeiros, ao associar a cidade do Rio de Janeiro como a imagem do Brasil. Nas poucas centenas de quilômetros quadrados que congregam ricos e miseráveis, internet e lápis sem ponta, condomínios e esgotos, samba e bossa-nova, reside a maior concentração das desigualdades que, em pleno século XXI, apresenta ao mundo a arrogância das elites que não cedem nem os anéis de fantasia para mitigar as carências.
A dengue, epidemia alarmante que é, ironicamente, democrática, ataca as periferias e a Barra da Tijuca. É uma espécie de "praga dos gafanhotos", uma peste que mata os filhos dos faraós e das gentes humildes. Apesar do mosquito transmissor ser tradicional naquela geografia, sua volúpia destrutiva atual é fruto do abandono da profilaxia cotidiana e espelha as preocupações voltadas ao egoismo, às futilidades e ao carreirimo político. É mais uma tragédia a rondar a cidade. O "mosquito caveirão" chega à zona sul e, talvez por isso, tire os cariocas da letargia no berço esplêndido.
Não há mágica, solução milagrosa ou político salvador que afaste as desigualdades geradas em séculos de opressão. A solução dos problemas cariocas caminha junto aos excluídos do país e do continente. As maravilhas da cidade devem ser de todos os cariocas.
Escrito por nada será como antes às 08h46
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CENA 1
Odete: Há, há, há, há, há, há, há........
Clélio: Tá rindo de que ?
Odete: Do que?? É uma peça cômica!
Clélio: Mas não está acontecendo nada, o ator está parado e em silêncio...
Odete: E dai? Os filmes mudos não têm graça?
Clélio: Não ri nenhuma vez no "Encouraçado Potenkim".
Odete: Você não tem senso de humor. O ator está parado e silencioso, mas é uma peça cômica, até o silêncio é engraçado.
Clélio: Não achei graça nenhuma no porteiro. Se a peça fosse boa,ele estaria rindo...E ele também estava em silêncio.
Odete: O porteiro não tem que rir, ele está trabalhando.
Clélio: Lá na firma, nós morremos de rir com as piadas do Jonas.
Odete: É por isso que a firma vai mal. Vocês riem e o mundo acaba.
Clélio: E quem disse que a firma está mal por causa das risadas? O que falta é cliente, freguês, grana...
Odete: Já este teatro, está lotado!
Clélio: Grande coisa...pfff...preços populares...
Odete: Não importa, está lotado. E para começar, as peças populares e baratas são as mais engraçadas, pode notar.
Clélio: Por essa lógica, as apresentações em Bangladesh e no Haiti devem ser hilariantes...
Odete: Aposto que sim, devem rir até desmaiar...
Clélio: ...de fome!!!
Odete: Pare de ser chato e preste atenção na peça...já perdemos essa parte....
Clélio: Não aconteceu nada e não vi ninguém rindo.
Odete: Claro! Você está atrapalhando...
Clélio: Você quer que eu trabalhe aqui, também? Meu expediente vai até às seis e já ganhei meu pão.
Odete: Pelo seu salário é um pão bem pequeno...
Clélio: Mas é ganho honestamente e com as obrigações cumpridas.
Odete: Não parece...rindo o dia inteiro?
Clélio: Em primeiro lugar, não rio o dia inteiro. E quem conta piadas é o Jonas, não os outros.
Odete: Vai ver que a firma vai mal por causa dele...
Clélio: Fora ele, tem mais oito empregados !
Odete: O cara é tão engraçado e só tem essa platéia mixuruca ?
Clélio: E dai ? É de improviso e ele não é profissional.
Odete: Por isso a firma vai mal...falta profissionalismo...
Clélio: Falta profissionalismo ? Essa agora....Por acaso eu não sei o que faço ?
Odete: Claro que sabe...principalmente beber cerveja e jogar com seus amigos...
Clélio: Só nos sábados e é assim que a gente se diverte...trabalho a semana inteira.
Odete: Precisa disso para se divertir ? Não bastam as piadas do Jonas ?
Clélio: Não! Não bastam...e as piadas não são tão boas assim...e não é sempre que ele conta.
Odete: Já vi tudo...esse Jonas não é de nada...
Clélio: Quem não é de nada é esse ator...só olha para a platéia, não diz nada e ninguém ri !!!
Odete: Você está me deixando nervosa.
Clélio: Relaxe. Viemos aqui para nos divertir.
Odete: E você não para de reclamar.
Clélio: Claro ! Paguei os ingressos e não vejo nada engraçado.
Odete: Os ingressos são baratos.
Clélio: E dai ? Você não disse que peças baratas são mais engraçadas ?
Odete: Mas não dá para ficar exigindo muito.
Clélio: Exigir muito ? Paguei o que cobraram, sem desconto...e os direitos do consumidor ?
Odete: Direitos ??? Pagou ?? Quem deu os ingressos foi a minha mãe !!!
Clélio: Do jeito que ela me odeia, deve ter sido proposital...ingressos baratos !!!
Odete: Não reclame...a coitada ainda ficou tomando conta das crianças.
Clélio: Tudo isso só para estragar a minha noite...
Odete: Silêncio...o ator está falando...
Homem no palco : Senhoras e Senhores, por razões técnicas, hoje não haverá espetáculo.....Na saida serão distribuidas senhas que darão direito à entrada em outra apresentação. Boa noite !
Escrito por nada será como antes às 09h54
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ORTOGRAFIA E CONTEÚDO
Apesar de não constar da programação de temas deste blog, um fato ocorrido ontem, no weblog de Pedro Doria, precipitou a escolha do assunto de hoje, que trata de equívocos ortográficos.
O post de ontem daquele blog trata das Farc e da perspectiva de encaminhamento de negociações com o governo colombiano, com vistas à liberação de reféns, dentre os quais se encontra Ingrid Betancourt.
O autor deste blog enviou vários comentários e, num deles, escreveu a palavra "empecilho", grafada da maneira correta. Outro frequentador daquele blog, cujo nickname não precisa ser mencionado, logo abaixo retrucou fazendo cópia e colagem do trecho onde este blogueiro escreveu referida palavra e, buscando fazer graça, acrescentou seu próprio comentário grafando a mesma palavra como "impecilho", sugerindo que este autor estivesse errado ao grafá-la com "e" inicial.
A seqüência dos comentários de ambos (este blogueiro e seu crítico) contou com inserções de outros comentaristas, os quais perceberam a impropriedade daquele gracejo, pois fora ele (o crítico) o autor do erro ortográfico. Talvez para remediar a gafe, o crítico voltou à carga, na mesma seqüência de comentários, apontando a ausência de tremas numa das palavras escritas por este blogueiro. Após troca de ironias entre os comentaristas, o post voltou a receber comentários pertinentes ao tema e este blogueiro saiu daquele site para tratar de outros compromissos.
As palavras acima não se prendem ao fato em si, mas remetem à inteligibilidade dos textos. A psicologia, a lingüística e outras especialidades tratam da escrita e da leitura como "irmãs". Tudo o que é escrito, pelo menos em potência, será lido. E a leitura depende de uma série de fatores, inclusive emocionais, dentre os quais pode constar a prévia antipatia do leitor em relação ao autor do texto. Se essa eventual antipatia existe, ela funciona como uma espécie de preconceito, capaz de rejeitar, antecipadamente, argumentos, palavras, pedidos, etc. Essa noção preconcebida pode impedir o próprio entendimento do texto e de sua estrutura, tornando difícil ou mesmo impossivel a apreensão do conteúdo.
Os sites de discussão da Internet exigem, por natureza, rapidez na inserção de comentários, fato que representa alto risco de palavras serem escritas à revelia da norma ortográfica. Isto é um problema grave ? É algo que merece muita atenção ?
A resposta mais razoável é não a ambas perguntas. Quando alguém consegue expressar argumento lógico, estruturado, ainda que com equívocos ortográficos, o principal objetivo do texto em questão, a inteligibilidade, está satisfeito e cumprido. É óbvio que a atenção à chamada norma culta não deve ser desprezada, especialmente porque é conveniente a manutenção de um padrão de escrita que permita a perpetuação da informação, do conhecimento, inclusive por leitores distantes e/ou futuros. Mas, no âmbito de sites debatedores, as estrelas dos textos são os argumentos, as posições defendidas e o conseqüente crescimento intelectual dos participantes. O apego a minúcias construtivas, como ortografia e concordância esconde, talvez, fragilidade informativa e de argumentos e ocasiona a suspensão do eixo temático, com perda de substância do debate.
Este blogueiro procura manter atenção às normas ortográficas, como fez ontem no mencionado post do blog de Pedro Doria. Não descarta, porém, a possibilidade de tê-las ignorado em outras ocasiões, que talvez não foram notadas. Mas ressalta, todavia, que prefere substância, ainda que mal grafada, ao vazio escrito corretamente.
Escrito por nada será como antes às 11h41
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ISRAEL : GUERRA ou PAZ ? PERSPECTIVAS
Falar de Israel e do respectivo conflito com a causa palestina não implica, na atualidade, fazer extenso histórico de datas, fatos e nomes de pessoas e guerras ocorridas. Qualquer pessoa medianamente informada conhece razoavelmente os antecedentes que resultaram na criação daquele país e os fatores envolvidos. Não causa surpresa a quase ninguém a afirmação de que Israel é apoiado pelos USA e que os paletinos, com ênfases distintas, são apoiados pelos países árabes. Em escala mundial, os apoios a ambos os lados são oscilantes e pontuais.
Ao longo dos últimos 60 anos, Israel foi construido como país e organizado como Estado. Foram realizados formidáveis projetos de irrigação, transportes, comunicações, geração de energia, infraestrutura de saneamento, universidades, centros tecnológicos, indústrias , centros de lazer, etc. Enormes porções do deserto ganharam habitabilidade e conforto. Isto é concreto.
No mesmo período, os palestinos sem cidadania israelense foram alijados de suas ancestrais áreas e ficaram restritos à luta contra o estabelecimento da nação israelense. Formam um contingente populacional com poucas perspectivas. Suas vidas são economicamente precárias, provisórias e sujeitas a drásticas mutações, articuladas segundo conveniências de cujas decisões não participam.
A precariedade da vida palestina inibe projetos pessoais, trava investimentos produtivos, dificulta a educação e a cultura, não cria empregos e gera ressentimentos que são transmitidos por várias gerações. Por outro lado, a luta palestina produz consciência política que, ironicamente, permite a afirmação de que a maior, senão a única "construção" palestina no período é a da idéia de criação de seu próprio Estado. Isto também é concreto.
Israel passou, especialmente nas últimas décadas, de um país em formação para um país estruturado, dotado de condições que o inserem, no mínimo, dentre os de média para alta qualidade de vida. No mesmo período, os territórios palestinos, além de separados geograficamente (Gaza e Cisjordânia), experimentam semi-estagnação econômica, dependentes de ajuda externa, além do permanente estado de apreensão social derivado do próprio conflito.
No atual quadro político , o saldo do conflito aponta para a clara supremacia israelense e a evidente derrota palestina. Não existe, no horizonte, nenhum dado que torne plausível a inversão dessa conjuntura.
Dentre as forças políticas representativas do povo palestino, as mais radicais defendem a extinção de Israel como nação judaica e Estado, com a reocupação de seu território pelos palestinos. É com base nessa opção radicalizada que esta pequena análise prossegue.
Apenas a título de hipótese, a extinção de Israel poderia ocorrer mediante duas possibilidades : guerra ou negociação.
Seguindo a hipótese, uma eventual negociação extintiva implicaria na transferência em massa da população israelense e no inventário material do país, para uma suposta indenização.
A relativamente pequena população israelense não representaria, na atualidade, grandes transtornos . Existem meios para locomoção de grandes contingentes em prazo reduzido e, certamente, não haveria grandes dificuldades para a alocação de todos, seja em território especificamente designado, seja em países estabelecidos. Não seria exagerado imaginar a possibilidade de disputa internacional para receber parcelas da população israelense, principalmente dos melhores qualificados ou dos detentores de bens e capitais.
O passo seguinte de uma hipotético acordo de desocupação seria o inventário e avaliação de todos os bens imóveis, da infraestrutura (energia, transportes, comunicações, etc.), do aparato físico-institucional, fábricas, veículos, enfim, de todas as riquezas disponíveis em Israel. Como é evidente, uma avaliação desse tipo, inédita na História, alcançaria níveis monetariamente astronômicos, absolutamente inviáveis quanto à liquidação financeira. Uma transação desse teor desequilibraria a ordem econômica mundial, dada a ausência da liquidez requerida. Ademais, não existem parâmetros de avaliação cabíveis a uma situação desse teor, inclusive porque a valoração de um bem qualquer depende, principalmente, de sua estabilidade no plano econômico, sua viabilidade multiplicadora e consequente garantia institucional. Esses fatores não estariam presentes nessa hipotética negociação.
A hipótese restante de uma desocupação israelense seria uma derrota de guerra. Derrotas parciais não implicam necessariamente em desocupação territorial. Portanto, uma derrota capaz de promover tal mudança, haveria de ser total, arrasadora, sem alternativas senão o abandono do país pela população.
Quando Israel ainda estava em processo de formação física, as duas guerras ocorridas (dos seis dias, em 1967 e do Yom Kipur, em 1973) foram inegavel e facilmente vencidas pelos israelenses. Desde então, o poderio bélico de Israel cresceu formidavelmente. Além da primorosa organização, as forças do país possuem aparato logístico e de inteligência que as colocam entre as mais avançadas do globo. Em termos materiais, incluidos os suprimentos, Israel está preparado para enfrentar qualquer guerra.
Mas o ponto principal a ser destacado em termos de enfrentamento bélico, na questão árabe/israelense, é de ordem moral. Israel, para os judeus residentes e os demais espalhados pelo mundo, representa a realização do mito da terra própria. A honra e o orgulho judaicos estão alinhados em cada parcela daquele território. Além dos enormes capitais investidos e das dificuldades de criação física do país, Israel é a consolidação do sentimento de nacionalidade judaico. Esse contexto indica que, numa eventual guerra, os israelenses estariam dispostos a utilizar forças de magnitude jamais assistidas pela humanidade, sem contar que o maior aliado do país (os USA), tem capacidade para multiplicar as forças locais, em curto espaço de tempo.
O hipotético confronto, portanto, representaria uma "guerra total", cujas primeiras e maiores vítimas seriam, justamente, os palestinos, pela condição geográfica e por representarem o fator essencial da disputa. Um conflito dessa complexidade extrapolaria a dimensão regional e traria drásticas e inimagináveis repercussões em escala mundial. Esse confronto não interessa a ninguém !
A extinção de Israel , tanto pela guerra como por negociação, na atual conjuntura política internacional, é impossivel. As propostas das forças palestinas mais radicais são inexequíveis.
A única perspectiva de solução do conflito israelense-palestino aponta para a negociação, que pressupõe o estabelecimento de normas de convívio e de relaçõe |